Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Aos 79 anos, morre João Alves Filho, o governador que revolucionou Sergipe

25 de novembro de 2020
Depois de mais de um ano em coma no apartamento da família em Brasília, ex-governador morre no Sírio Libanês do DF, às 22h dessa terça, 24/11. Há oito dias ele sofreu parada cardíaca de 30 minutos e o quadro só agravou

[*] Tatianne Melo

Três vezes governador de Sergipe (1983-1987, 1991-1994, 2003-2006), o único até hoje a conseguir essa marca; duas vezes prefeito de Aracaju (1975-1979 e 2012-2016), uma de forma biônica e outra eleito pelo povo; ministro do Interior no Governo de José Sarney (1987-1990), João Alves Filho, o João da Água, o João Chapéu de Couro, o Negão, falece aos 79 anos devido a complicações de saúde que o mantiveram vegetativamente por um bom tempo numa espécie de UTI residencial no apartamento da família em Brasília. 

Além de partir deixando a esposa, a senadora Maria do Carmo, seus três filhos - João Neto, Maria Cristina, Ana Alves, e quatro netos, Danilo, Alice Maria, Nina Rosa e Maria de Lourdes -, João se vai a bordo de um enorme legado de obras e de exemplo como homem público para Sergipe. 

Em mais de 20 anos de mandatos públicos no Executivo – nunca flertou com o Legislativo -, João governou pautado, principalmente, no desenvolvimento urbano e no assistencialismo ao homem do campo. Entre suas principais ações, destacam-se a criação da Orla da Atalaia; projeto Chapéu de Couro, projeto Platô de Neópolis; duplicação da adutora do São Francisco; Bairro Coroa do Meio; Hospital de Urgência de Sergipe - Huse -, conhecido até hoje como Hospital João Alves Filho; Parque da Cidade; grandes avenidas, como Maranhão, Visconde de Maracaju; Ponte Construtor João Alves - Aracaju-Barra dos Coqueiros – e a viabilização do Porto de Sergipe. 

Ao descrever quem foi João para Sergipe, familiares, autoridades, amigos e aqueles que tiveram a oportunidade de trabalhar com ele são unânimes: um homem extraordinário, inteligente, inquieto, com enorme disposição e visão de futuro. O Negão - engenheiro, empresário, político, escritor, estudioso - é dono de uma biografia pública invejável.

João Alves Filho: uma quase unanimidade entre os sergipanos sobre o bem que fez a Sergipe
João Alves no lançamento de um dos seus livros, ladeado por João Machado Rollemberg, ACM e Hugo Napoleão

HOMEM INCANSÁVEL 
Segundo Ana Alves, filha de João, mais do que com a visão do político, o Negão trabalhava com a visão grandiosa de construtor, com certeza herdada do pai - o construtor João Alves. “Ele tinha aquele olhar de engenheiro, que vai ali e transforma. Doutor Evaldo Campos relatou muito bem num artigo que, se João Alves Filho não tivesse existido, perderia Sergipe em obras e nós seríamos, com certeza, uma província atrasada”, diz.

“E eu digo essas mesmas palavras de doutor Evaldo, pois, por onde você anda em Aracaju e em Sergipe, terá a mão de João. E, se determinadas obras são possíveis hoje, é porque João tomou a frente. Quando a gente fecha os olhos e tenta retratar o que seria de Aracaju sem tais obras, ela não existiria”, afirma Ana Alves. 

O Negão era reconhecido pela inquietude, pelo elevado espírito público e pela criatividade. “Se tivesse vontade de ligar para um secretário, ele não queria saber se eram 9h, 10h, 11h da noite. Telefonemas dele às 23h e à meia noite recebi vários”, relata Machado. Segundo Antônio Carlos Borges, uma característica marcante de João era exatamente a de trabalhar 24 horas por dia, sendo que o dia só tem 24 horas.

MERECEDOR DE AS TODAS HONRAS
“Eu cito até um exemplo: num feriado estadual em Sergipe, o telefone (fixo) tocou 4 horas da manhã e eu atendi já dizendo: “diga doutor João”. E ele: “como sabe que sou eu?”. Aí, eu: “feriado, 4 horas da manhã, só pode ser o senhor”. Ele disse: “rapaz, vamos aproveitar o feriado, pegamos o voo da Varig 7h da manhã para o Rio de Janeiro, nos reunimos com o BNDES, de lá vamos para Brasília, nos reunirmos no Ministério do Interior e voltamos à noite. Ganhamos um feriado””, relata o ex-secretário de Planejamento.

Para Edmilson Machado, secretário de Agricultura em dois Governos Estaduais e assessor especial de João no Ministério do Interior, o Negão é merecedor de todas as honras por parte dos sergipanos. “Doutor João Alves dedicou muito trabalho ao desenvolvimento do Estado. Foi uma pessoa de espírito criativo, caçador de novidades, um empreendedor. Se alguém chegasse nele e dissesse: “olhe, tal lugar está com um trabalho interessante...”, ele deslocava a equipe dele para o local e, conforme fosse, ia lá também ver”, afirma.  

O ex-governador Albano Franco descreve João como um homem muito inteligente, criativo, trabalhador e de grande carisma. “Como prefeito de Aracaju, fez várias obras importantes de infraestrutura. E no Estado, ele também fez obras de grande relevância. Ele tinha uma boa imagem tanto que chegou a ser ministro do Interior, no Governo de Sarney. E, realmente, foi um bom ministro”, destaca. 

Em comício de eleição para governador do Estado de Sergipe

PAIS E ESTUDOS
Filho do renomado empresário e construtor João Alves e de Maria de Lourdes Gomes, João nasceu em Aracaju, mais especificamente no Bairro Santo Antônio, em 3 de julho de 1941, com o seu destino traçado: servir ao povo sergipano.

Engenheiro civil formado pela famosa Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia - UFBA -, João contribuiu diretamente com o desenvolvimento urbano e econômico de Sergipe, tendo um importante papel na construção dos mais de 200 anos de história do Estado.

João foi também um grande estudioso, principalmente quando a temática era água – ou a falta dela. Dedicou boa parte de sua vida a estudar os rios, sobretudo a transposição do São Francisco. “Ele não gostava de dormir, pois vivia estudando. Não gostava de ser pego em algo que não sabia responder. Então, tanto conhecimento fez dele esse homem prolixo, porque era o conhecimento na cabeça dele”, destaca Ana Alves.

JOÃO EMPRESÁRIO
Antes de mergulhar no mundo da política, João focou sua vida como construtor. Uma vez formado em Engenharia Civil, começou a carreira de engenheiro ao lado do pai, na Construtora Alves e, logo em seguida, fundou a sua própria empresa, a Habitacional Construções, que se tornaria um dos maiores empreendimentos da construção civil do Nordeste.

Antônio Carlos Borges relata um pouco o lado construtor e pioneiro do ex-governador. “Minha relação com João começou antes de ele ser prefeito, quando eu era gerente de crédito industrial do Banco do Estado de Sergpe – Banese - e ele entrou com um projeto para implantar o Hotel Beira Mar, o primeiro da Praia de Atalaia, aquele em frente aos arcos - quando não existia ainda a Orla construída no Governo Estadual do próprio João. Repare que ele foi pioneiro já em implantar o primeiro hotel ali. Olhe que era algo grandioso para as características da época”, relata. 

Borges relembra outro fato marcante na vida de João, que foi determinante para a entrada do Negão na política: uma palestra sobre planejamento urbano num curso frequentado pelas maiores autoridades políticas e empresariais do Estado, como Constâncio Vieira, Sabino Ribeiro, Jorge Leite, José Rollemberg Leite, Orlando Dantas.

João com o ex-deputado Djenal Tavares Queiroz, que também foi seu secretário de Habitação

ENTRADA NA POLÍTICA
“Quando houve um curso de duração de três meses realizado no Banese e promovido pela Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra, João foi convidado para falar sobre planejamento urbano, sendo que a maioria dos palestrantes era de fora. Foi uma excelente palestra, que impressionou todo mundo, principalmente José Rollemberg Leite, que, logo após assumiu o Governo de Sergipe e convidou João para ser o prefeito biônico na época do regime militar”, relata o ex-secretário de Planejamento. 

Borges lembra que, num primeiro momento, João não aceitou o cargo. “Pois ele estava começando a carreira solo de construtor e nunca se interessou por essa parte de administração pública. Mas, então, José Rollemberg disse a ele: “você envolveu todas as lideranças políticas e empresariais com sua excelente palestra e agora, quando poderia colaborar, se nega?””, relata. 

“Sei que José Rollemberg deixou João de mãos atadas, então, ele aceitou ir para a Prefeitura. Foi aí que João me convidou para ser secretário de Planejamento e começamos o nosso caminho na administração pública”, relembra o ex-secretário de Planejamento.

DESAFIOU A LESTE 
Filiado ao partido Arena, João começou sua vida política como prefeito, tornando-se muito popular ao longo de sua gestão. Ficou conhecido como “tocador de obras”. “Ele deixou a Prefeitura consagrado. Quando terminou o mandato, foi levado ao seu apartamento a pé, por uma multidão de pessoas, por uma comitiva de carroceiros”, afirma Machado, que foi diretor de Obras e Urbanismo na época. 

“João transformou Aracaju”, frisa Machado, em tom elevado. “Foi um negócio extraordinário. Obras construídas 45 anos atrás que ainda hoje são relevantes. João construiu a Avenida Maranhão, foi capaz de construir o prolongamento da Avenida Desembargador Maynard, da Rua Acre até a Avenida Contorno, Avenida Coelho Campos, Avenida Visconde de Maracaju, Avenida 24 de Outubro”, elenca Machado.

Machado relembra que, na época, João desafiou a Leste - organização ferroviária criada por Getúlio Vargas, responsável pela exploração das principais linhas férreas da Bahia, bem como Sergipe - para construir avenidas na Capital sergipana. Ele relembra também que o Negão foi o responsável pela criação da Empresa Municipal de Obras e Urbanização – Emurb.

Era então 1966, recém casado, João sai no carro com Maria do Carmo e a filha Ana Alves ainda pequena

PELA LIBERAÇÃO DE TERRAS DE MARINHA
“Foi um desafio, pois a Leste não queria que construíssemos de hipótese nenhuma. Tanto que para começar, não foi uma ameaça, fomos avisados que só poderíamos se houvesse autorização por parte da Leste. Ali do muro da Leste até o mercado era um matagal, com aquela linha férrea abandonada no centro. E João conseguiu”, relata Machado. 

Para o jornalista Raymundo Luiz - fiel escudeiro de João na administração pública, atuando como assessor especial e secretário de Comunicação -, Aracaju tem sua história desenvolvimentista dividida entre: antes e depois da passagem do Negão na Prefeitura Municipal. 

“Você sabe quantas avenidas tinham em Aracaju? Eram poucas. João fez uma transformação na Capital. Ele fez uma Prefeitura falida a mais rica do Brasil. E eu explico por quê. Ele conseguiu que o presidente (Ernesto Geisel) liberasse os terrenos de Marinha para a Prefeitura e depois loteou. Do Mané Preto até o Banho Doce na Atalaia... Você imagine quantos lotes de terreno foram vendidos”, afirma Raymundo Luiz.

PRESTÍGIO JUNTO A GEISEL 
“Para se ter uma ideia, toda aquela avenida litorânea, Tramandaí, aqueles prédios todos, Bairro jardins, tudo isso ali, ele loteou, vendendo e fazendo novas avenidas, construções, valorizando essas áreas. Ali o pessoal pagava laudêmio à Secretaria de Patrimônio da União e o terreno adquiria da própria Prefeitura. Então, é um negócio extraordinário. São com esses fatos que você vê quem foi João Alves”, relata Raymundo Luiz. 

Ainda na primeira gestão à frente de Aracaju, João foi responsável pela criação do Bairro Corroa do Meio e da Ponte Godofredo Diniz, que liga a Coroa ao Centro. “Ele conseguiu que o presidente da República desse um domínio de uma área enorme, por meio de um decreto, que permitiu fazer as obras na Coroa. Geisel tinha tanta admiração por João que veio aqui inaugurar o Centro Social Urbano, ali na Rua Alagoas”, afirma José Carlos Machado. 

Mesmo consagrado, após concluir o mandato na Prefeitura de Aracaju, João voltou às atividades empresariais. “Comentou-se de ele disputar uma eleição para o Senado, mas não aceitou. Passou uns quatro anos afastado da política”, comenta Machado. 

Em 1994, ao lado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com quem muito bem se entendia

APOIO DOS FRANCO
A volta de João à política se deu através do governador Augusto Franco, que o convidou a se filiar ao Partido Democrático Social, PDS, agremiação sucessora da Arena, e o indicou, posteriormente, como candidato ao Governo do Estado na eleição de 1982. Naquele ano, após duas décadas, o Brasil voltou a ter eleições diretas para governador. “Em 1982, João era o político daquela época, era o nome que se comentava. Sei que Augusto Franco, comandante do partido, o convidou para ser o candidato do agrupamento dele”, afirma Machado. 

Na eleição de 1982, o nome de João foi referendado por Albano Franco, então presidente da Comissão Executiva Regional do PDS e filho de Augusto Franco. “Meu pai, quando governador do Estado, nessa época, eu já estava trabalhando na política também, foi o responsável por articular a candidatura de João. Aí, eu tive uma influência também. Fiz uma agenda positiva para João ser o candidato apoiado pelo doutor Augusto Franco”, afirma Albano. 

“Na minha família, havia muita discordância, divergência com relação a essa candidatura de João, mas eu torci e ajudei na época para ele ser o candidato a governador. Também fizemos a campanha juntos porque ele foi o candidato a governador e eu a senador”, relembra Albano.

ELEIÇÃO CONSAGRADORA 
Eleito com 76% dos votos válidos, tendo como vice Antônio Carlos Valadares, João teve uma das mais expressivas votações no Estado até hoje. “João teve uma vitória consagradora. Essa vitória de Belivaldo em 2018 foi consagradora, mas, se for fazer conta da proporcionalidade, João teve muito mais votos do que Belivaldo”, comenta Machado. 

Segundo Albano, era fácil defender o nome de João como candidato a governador. Ele confessa que sempre nutriu uma admiração pelo ex-governador, mesmo em momentos de ranhuras políticas. “João Alves sempre foi o meu amigo. Politicamente falando, tivemos algumas divergências. O pessoal acha que no primeiro Governo ele não prestigiou nem doutor Augusto e nem o agrupamento. Mas sempre respeitei a figura de João Alves Filho e admirei pela inteligência, criatividade, capacidade de trabalho, simpatia e carisma. Foi um homem muito importante para o nosso Estado”, enaltece.

À frente do Governo de Sergipe, João implantou ações de estímulo à agricultura, de combate à seca, à miséria, com o intuito de levar desenvolvimento ao Interior do Estado. Com o financiamento do Banco Mundial, criou na primeira gestão o projeto Chapéu de Couro, voltado ao homem de campo, aos sertanejos que sofriam com a falta d’água. Perfuração de poços artesianos, edificação de cisternas, bem como construção de estradas, escolas, postos de saúde e implantação de redes de energia elétrica eram prioridade na gestão do Negão.

João falando ao lado de Reinaldo Moura e Albano Franco

“JOÃO DAS ÁGUAS”
Diante de uma seca enorme que assolava Sergipe, o ex-governador ganhou o apelido de “João das águas”. “João fez um primeiro governo tão revolucionário ou mais revolucionário ainda do que a Administração na Prefeitura. Os desafios eram enormes. Nós convivíamos com a seca. Então, o foco dele era a água, levar a água para o Sertão. Eu sei que nesses Governos todos de João construímos quase 2.000 km de adutoras”, diz Machado, que foi nessa época secretário de Saneamento e Recursos Hídricos.

Machado relata que, diante de sertanejos incrédulos, João prometia levar água para todos. “Certa vez, em Nossa Senhora da Glória, com aquela seca assolando, milhares de sergipanos nas frentes de trabalho, ele disse: “o sertanejo não vai passar fome... Eu paro o Estado, mas o sertanejo não vai passar fome”. Eu me arrepio ao relembrar isso”, informa.

“Aí, começou o programa de adutoras revolucionário. Eu me lembro que prometemos levar água para a cidade de Pedra Mole. Aquelas pessoas se entreolharam e devem ter pensado: “a água a 200 km daqui?”. E água chegou a Pedra Mole antes de João terminar o primeiro Governo”, relata Machado.

PROJETO CHAPÉU DE COURO 
Para Antonio Carlos Borges, é difícil selecionar os feitos de João como prefeito e governador. “O primeiro projeto, realmente, que fez sucesso não só a nível nacional, mas também internacional foi o Chapéu de Couro, que era o programa de apoio ao produtor rural, à infraestrutura”, afirma.

“Integrado ao Chapéu de Couro, João realizou grandes investimentos na área de infraestrutura hídrica, adutoras. Naquela ocasião, só existia a adutora do São Francisco para abastecer Aracaju, então, ele começou a fazer uma verdadeira malha de adutoras para abastecer as diversas cidades do Sertão”, informa o ex-secretário de Planejamento. 

Borges destaca outras ações importantes de João. “Como governador, foi ele que implantou o sistema de transporte de massa da Capital. Seria uma ação do Município, mas ele que executou, depois a Prefeitura ampliou para a Região da Grande Aracaju.  Na área de turismo, ele foi um grande incentivador, que culminou nessa infraestrutura da Orla de Atalaia, um projeto bastante reverenciado”, afirma.

João Alves com toda a sua alegria e seu chapéu de couro, símbolo deste povo e do estadista nordestino

JOÃO MINISTRO 
Outro marco da gestão de João à frente do Governo Estadual - na terceira e última - foi a construção da Ponte Aracaju-Barra. “Ele se meteu naquela ponte e não foi brincadeira não. Naquela época, era um consumo de dinheiro danado. Ele fez uma obra que foi uma beleza, em termos de resultados para o Estado”, diz Edmilson Machado.

Como ministro do Interior, João também não passou batido. Investiu recursos do Ministério em projetos de combate à seca no Nordeste e na viabilização econômica da região. 

“Ele fez um trabalho extraordinário em benefício desse Brasil. Ele corria esse país de ponta a ponta. Ao chegar ao Congresso Nacional em 2003, ouvi de vários parlamentares: “Machado, eu devo muito a João”. Aquele pessoal do Tocantins mesmo, Estado criado quando João estava à frente do Ministério, tem por ele verdadeira adoração”, comenta Machado.

Última gestão e saúde debilitada diante do Alzheimer

Já com a saúde debilitada - indícios do Mal de Alzheimer que, naquela época, ainda passavam despercebidos - João encarou o seu último mandato, entre 2013 a 2016, retornando à Prefeitura de Aracaju mais de 30 anos depois, sendo que dessa vez por meio de eleição direta. Fez uma gestão marcada por equívocos, erros. Mas nada que chegasse a desabonar a biografia exitosa do Negão. 

Apesar de, claro, preferir guardar na memória apenas a fase áurea do seu amigo e fiel escudeiro político, Machado comenta um pouco da última gestão de João à frente de um órgão público. 

“Hoje, você analisa o que aconteceu naquele período. Depois que acontece é fácil você concluir. Realmente, ele não estava bem”. “Aí me questionam: “Você não percebeu, Machado?”. É difícil. Não era o João que conheci no primeiro Governo, como prefeito. Eu notava que ele se portava na condução dos problemas com algumas dificuldades. Mas eu pensava: “isso pode ser fruto da idade. O cabra está ficando mais velho””, relata Machado.

João Alves, Valadares e José Carlos Machado

João: um pai que “renunciou” à família em prol do seu Estado

Casado por mais de meio século - mais precisamente 54 anos - com Maria do Carmo, João Alves construiu junto com a senadora um casamento sólido de fazer inveja a muitos diante de tamanho companheirismo e cumplicidade. Era João de Maria e Maria de João, como bem descreve a filha dos dois, Ana Alves.

Fruto do amor entre João e Maria, Ana não esconde a predileção e verdadeira adoração ao pai. “Eu não consigo decifrar o meu pai, o doutor João, o João homem público, o João empresário. Eu consigo sentir. Eu consigo amar acima de mim mesma. Eu só assim muito mais apegada com o meu pai. Isso é algo que não precisa esconder”, afirma Ana.

Ao ser questionada pelo JLPolítica quem foi João Alves Filho para ela e para a família, Ana teve que respirar fundo e conter a emoção. “Aí, João Alves? Eu não consigo nem explicar. João Alves é algo tão grande que é impossível definir. Quando eu via o meu pai na cama, que eu lembrava da história dele, um homem tão grandioso, seja como pai, como esposo, empresário, político... Nossa!”, relata. 

Ao descrever mais sobre o pai, Ana afirma que foi um homem que “abriu mão” de sua família em prol do seu Estado. “Quando eu tinha quatro, cinco anos, ele abandonou a família dele para cuidar (do povo sergipano) e eu só fui entender isso um dia desses. É muito difícil para um filho entender isso”, diz. 

Para Ana, seu pai foi um homem que segurou o destino e construiu a própria história com toda a ousadia. “João foi um homem que veio lá de baixo, filho de pessoas humildes do Bairro Santo Antônio, que nunca ligou para essa coisa de ser negro. Ele foi um desbravador, um guerreiro. Foi um indecifrável”, ressalta.

João Alves Filho e Maria do Carmo, um casamento que supera toda e qualquer divergência política