Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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“Nova economia”: pandemia paralisou uns negócios e fez surgir outros

Atividades voltadas especialmente para o atendimento online e em casa foram fortalecidas, assim como os segmentos de alimentação e construção. Especialistas, no entanto, não as veem como “salvadoras” da economia

Já são quase cinco meses de quarentena e uma dúvida constante em relação à economia, que vê os índices piorarem a cada dia enquanto muitas empresas fecham suas portas e empregos se esvaem. No entanto, na contramão disso, alguns negócios estão conseguindo se manter e até mesmo prosperar nesse momento, se reinventando e buscando alternativas para a paralisação econômica, total ou parcial, que se impôs. 

O cenário já não era tão positivo, com a economia brasileira debilitada em virtude de uma depressão que a atingiu em 2015 e 2016, de menos 3,5% e menos 3,3% respectivamente do PIB. Logo em seguida, houve uma tímida recuperação, patinando em torno de 1% entre 2017 e 2019. O ano de 2020 começou mal e segue ainda pior.

A projeção do Fundo Monetário Internacional – FMI - é de queda de menos 9% enquanto a do Governo Federal, mais otimista, aponta uma retração de menos 5,66%. Como consequência, há um aumento de fechamento de diversas empresas e do desemprego, que já atingiu 13,3% no trimestre encerrado em junho, impactando em 12,8 milhões de pessoas.

Pandemia paralisou total ou parcialmente vários negócios, mas também fez surgir outros
Josenito Oliveira: “a história da humanidade mostra que em momentos difíceis, o ser humano tem a capacidade de se reinventar”

MARKETING
Todos esses negócios contaram com uma ferramenta crucial: o marketing digital. Shirley Vidal, especialista na área e assessora de Comunicação na agência Vip, afirma que a pandemia do novo coronavírus traz uma realidade que socialistas e futuristas chamam de fato acelerador de futuro. “Antes de se prender ao digital, é importante ressaltar que tais meios são canais sociais, onde se estabelece comunicação, relações e, claro, vendas”, lembra Shirley.

Sendo assim, a internet é uma rua que abriga três entre quatro brasileiros. “Estamos falando de um universo de 134 milhões de pessoas conforme a pesquisa TIC Domicílios 2019. Empreendedores que já vinham desenvolvendo a transformação digital em seus negócios, neste momento, têm menor impacto econômico, visto que podem oferecer seus serviços e produtos nesta mesma 'rua' online. Outros, enxergaram a oportunidade e fazem de demissões ou frustrações, uma transformação de como trabalhar neste novo cenário”, analisa.

Questionada sobre se o marketing digital foi fator decisivo para alguns negócios prosperarem na pandemia e outros não, ela diz que “o marketing é um só", citando a professora Martha Gabriel. Ou seja, a especialidade em digital nasceu justamente para atender a um cenário de mobilidade, onde pessoas, marcas, comunidades, escolas, etc, podem se encontrar através de plataformas distintas.

INTERNET
“A esta altura de quatro meses de quarentena, as pessoas estão quebrando seus paradigmas sobre estar necessariamente de “corpo presente” para estudar, trabalhar, ser atendido por um médico, comprar, inclusive, insumos de primeira necessidade pela internet, como fazer feira de hortaliças com pedido online, por exemplo. Essa é uma mudança de hábito que vem se notando no e-commerce brasileiro, que tradicionalmente vendia muito mais produtos eletrônicos e de moda (produtos duráveis), até com datas marcantes a exemplo do Black Friday”, esclarece.

Obviamente, usar o marketing ao seu favor e ter, com ele, retorno no negócio, não é uma receita de bolo, mas Shirley enumera algumas iniciativas fundamentais. “O primeiro ponto a considerar é entender a jornada de compra do seu cliente e quem são estas personas. Quais tipos de busca ele realiza antes de chegar ao seu negócio ou do seu concorrente. Outro item muito importante a considerar é o profissionalismo para atuar com marketing digital. Ninguém contrata o primo e sobrinho para desenvolver o projeto arquitetônico e de engenharia da loja física. Por que no digital seria diferente?” , questiona.

Ela diz que esse marketing digital é o primeiro cartão de visita, porque é através do Google, das mídias sociais e de outras plataformas digitais que a sua marca será encontrada inicialmente. “Então, facilite. Vai ter um site ou aplicativo com vendas, agendamentos e integrações com outros sistemas? Torne-se acessível e disponibilize ferramentas intuitivas para o seu cliente. Terá presença nas redes sociais, a exemplo de Instagram, youtube e facebook? Vai precisar de estratégia para conteúdo que obtenha retenção, engajamento e conversão”, ressalta.

Sérgio Smith: “mesmo com um momento totalmente desconhecido nos adaptamos bem e tivemos um bom fechamento de vendas nesses meses”

LOCOMOTIVA
“Com a volta das atividades dos setores em geral, teremos a atividade imobiliária como uma das locomotivas para a retomada do desenvolvimento, gerando muito emprego e renda a partir de 2021”, avalia. 

Paulo vê o mercado imobiliário no pós-pandemia com um ciclo longo de crescimento. “As taxas de juros nunca estiveram tão baixas, gerando um grande poder aquisitivo para o comprador, sendo o imóvel um investimento seguro”, justifica. 

A Primasa Camel foi uma das construtoras que assinaram contrato com a Caixa na última semana. Sérgio Smith Júnior, diretor Comercial da empresa, diz que isso mostra a concretização de um trabalho muito bem desenvolvido durante este tempo de pandemia, bem como a comprovação da qualidade dos produtos. 

GARANTIA
“Com o financiamento, podemos dar uma garantia aos nossos clientes de que o empreendimento será executado como planejamos, além de conseguir gerar mais emprego com novas contratações, pois as obras terão início imediato”, afirma Sérgio Smith Júnior.

Segundo Sérgio, durante a pandemia, a Construtora seguiu rigorosamente os protocolos de saúde e se adaptou ao trabalho “home office”. “As obras foram paralisadas durante três meses, cumprindo determinação judicial, e só pudemos voltar às atividades no final de julho”, lembra.

A empresa tinha lançado um empreendimento em março, o Green Village, antes da pandemia deflagrar. Mesmo assim, conseguiu, através dos canais digitais, comercializar 90% das unidades. “Mesmo com um momento totalmente desconhecido nos adaptamos bem e tivemos um bom fechamento de vendas nesses meses”, comemora. 

IMPACTOS
Mas, para Sérgio, isso não significa que o setor não foi impactado. “Paramos todas as obras durante três meses e assim que retomamos tivemos alguns prejuízos com custos extras. Mesmo com a ajuda do governo, que não foi 100%, com a retomada, foi nos exigido investimentos a mais”, ressalta.

Esses investimentos a que Sérgio se refere são tanto como um plus nas ferramentas digitais quanto com compra extra de Equipamentos de Proteção Individual- EPIs -, a exemplo de máscaras, álcool em gel e outro itens de prevenção que possam garantir a saúde e segurança dos colaboradores. 

“Com a volta do trabalho nas obras, tivemos que realizar teste para Covid-19 em todos os colaboradores, o que pesou bastante em nosso orçamento, cenário este que continuará, pois precisamos repetir os exames a cada 15 dias para que todos possam trabalhar com segurança”, reforça. 

De acordo com Sérgio, a empresa está aproveitando o momento para trabalhar com novas estratégias que se enquadram ao novo cenário. Porque, para ele, o país só sairá desta situação quando a vacina contra o novo coronavírus for liberada para a população.  “Enquanto isso, continuamos firmes e fortes em nosso propósito, seguimos todos os protocolos de prevenção, pensando sempre no melhor aos colaboradores e clientes da Primasa Camel”, reitera. 

Paulo Nunes: “a partir de junho, já temos uma mudança de cenário nas vendas de imóveis”

KITS FEIRA
Para dar conta dessa empresa dentro da empresa, eles vêm se reinventando todos os dias, a casa ideia, a cada feedback. “E  garanto, não pararemos por aqui. O projeto não se acabará pós pandemia, estamos trabalhando para aumentar ainda mais nosso alcance. Hoje atendemos toda grande Aracaju e temos clientes em Socorro, Maruim...que pedem o serviço para suas localidades, e em breve terão”, revela. 

Tudo isso sem perder aquela relação com o cliente, inclusive com o uso do bordão “bom dia, freguês”. “Utilizando estratégias fora da caixa para apresentar nossos produtos em forma de Kits, utilizando a linguagem de feirante, levando para o cliente sempre o respeito e carinho da nossa família para a de todos eles. Foi o que nos fez crescer muito mais. Nossa equipe cresceu, nossa clientela também e somos imensamente gratos por todo apoio que nossos clientes dão”, garante a empresária. 

MERCADO IMOBILIÁRIO
“Como todas as atividades, o mercado imobiliário sofreu as consequências da pandemia. Todavia, seus efeitos foram menores do que em outros setores”. Essa é a análise do engenheiro civil Paulo Nunes, que preside a Associação dos Dirigentes das Empresas do Mercado Imobiliário de Sergipe - Ademi/SE.

“Houve, sim, uma desaceleração, em especial nos meses de abril e maio, mas a partir de junho, já temos uma mudança de cenário nas vendas de imóveis”, completa Paulo Nunes. Isso ocorre, segundo Paulo, em primeiro lugar, pelos agentes financeiros, em especial a Caixa Econômica Federal, terem continuado estimulando muito o financiamento habitacional, com vários pacotes de benefício. 

“Além disso, em termos econômicos, tivemos redução significativa nas taxas de juros para os adquirentes. Então, sim, a construção civil serviu como força propulsora para a manutenção do emprego no país inteiro”, reconhece. 

PARALISAÇÃO
Isso mesmo depois de uma paralisação longa no mercado sergipano. “O que não se viu em nível nacional, por exemplo. Só recentemente tivemos autorização para voltar a trabalhar, mas ainda com muitas limitações”, lembra o presidente. 

Segundo ele, inclusive, com exigências maiores do que outros Estados desenvolvendo a mesma atividade, o que leva a um aumento de custo de produção. Paulo é diretor da Jotanunes Construtora, que, segundo ele, felizmente, manteve vendas e financiamentos no período, mas a produção, as obras em si, permaneceram paralisadas em função de decisão judicial por mais de 70 dias.

Essa semana, inclusive, algumas construtoras assinaram contratos de financiamento com a Caixa, o que, para o presidente da Ademi, é um sinal claro de reação do mercado, gerando “as melhores expectativas possíveis”.

Tereza e o pai, Messias, tiraram do papel os projetos que sempre sonharam para o negócio da família

QUALIDADE
Para além disso, Shirley diz que é preciso lembrar sempre que qualidade está acima de quantidade. “Profissionais especializados em marketing digital são capazes de desenvolver este planejamento e efetuar estas entregas de resultado”, sentencia. Ela não tem dúvidas de que esse mercado irá crescer cada dia mais. “É um caminho sem volta. Temos internet das coisas, inteligência digital e sofisticadas tecnologias em avanço crescente em todos os setores: varejista, educacional, cultural, na saúde, direito e dos próprios meios de comunicação. Todas estas tecnologias são nossas aliadas a termos mais acesso e igualdade”, pondera.

Nesse momento, inclusive, acontecem congressos mundiais que só existiam para um número pequeno de profissionais que podiam se locomover para outros países. Agora, qualquer pessoa habitante deste globo poderá acompanhar aulas que nunca sonharam assistir.

“Diria que vivemos uma Revolução: estamos assistindo a uma nova era do Renascimento, onde novas crenças e valores surgem a partir das portas abertas pelo digital. É aderir, investir e poder usufruir de uma vida com mais tempo para si mesmo, com leveza e liberdade. Encaremos com otimismo por uma transformação online com experiências positivas e de grandes aprendizados”, argumenta Shirley Vidal.

Todos esses dados, aspectos e essas empresas indo na contramão da paralisação traçam um novo roteiro econômico que se faz notar, gerando um novo ciclo, que já é natural na história da economia, onde há períodos de crescimento, períodos de estagnação e períodos de queda. Sendo assim, para o economista Josenito Oliveira, o conceito de “novo normal”, que vem se convencionado, não se aplica à economia.

“A pandemia é um problema de saúde pública que causou um grande estrago na economia. O termo “nova economia” significa coisas diferentes para pessoas diferentes em tempos diferentes. A crise do Covid-19 mudou a relação comercial. Já não somos mais os mesmos, na forma de consumir e na forma de ofertar. Iremos sair disso sim, e iremos nos recuperar, talvez demore, mas voltaremos a viver um ciclo de crescimento”, assegura.

Shirley Vidal: “antes de se prender ao digital, é importante ressaltar que tais meios são canais sociais, onde se estabelece comunicação, relações e, claro, vendas”

CONCENTRADA
De acordo com ele, para os negócios que atendem os menores níveis de renda, que têm no preço seu principal elemento decisório, isso não fará muita diferença, o que também pode causar impactos na área da Saúde. Tampouco poderão salvar a economia a longo prazo.

“Por sinal, do modo que está, o Brasil é uma economia inviável pela própria natureza, a ponto de chamar de “retomada” um crescimento da ordem de 1% ou 1,5% ao ano. Não há setor algum da economia que possa nos “salvar”. É preciso entender que os dínamos da nossa economia, nos últimos 25 anos, foram o consumo das famílias e o investimento público”, reforça.

Tudo isso faz Emerson Sousa crer que a economia no pós-pandemia será concentrada. Isso porque, por causa da necessidade de incorporar as despesas com medidas de higienização, os custos de transação dos negócios com maiores taxas de retorno se tornarão ainda mais proibitivos para os médios, pequenos e microempresários.

“E, numa concertação cínica onde os oligopólios vão passar a ter mais poder sobre esses segmentos do empreendedorismo, de modo em que, em verdade, esses pequenos serão verdadeiros “empregados” dos grandes. Contudo, o Sars-CoV2 veio apenas para acelerar esse processo que já estava em franca expansão”, pontua.

EXPANSÃO
No entanto, durante esse período de isolamento social, houve crescimento no consumo de produtos de primeira necessidade, como é o caso de massas e biscoitos, entre os quais está a categoria de pães, em expansão em Aracaju através do Grupo França.

“No mês de junho, por exemplo, as vendas do setor atacadista cresceram 10%, no Brasil, em relação ao mesmo período de 2019. Temos fornecedores na França que estão investindo na capacidade de produção e armazenamento de suas fábricas, pois tiveram suas expectativas vendas superadas nesse período”, relata Breno França, sócio-diretor da empresa França, do setor de Distribuição.

Líder empresarial, ele exerce atualmente a Presidência do Sindicato do Comércio Atacadista em Sergipe e conselheiro da Fecomércio Sergipe e diz que ter um planejamento de longo prazo foi crucial para conseguir crescer nesse momento.

“O planejamento contempla dar suporte ao setor de panificação dos supermercados e atacarejos em todo o Estado de Sergipe, segmento que vem crescendo ano após ano, por vários motivos, como a proximidade, comodidade e relacionamento que as pessoas têm com o varejo do seu bairro”, explica Breno.

PANIFICAÇÃO
Dessa forma, mesmo diante de momento instável, o Grupo decidiu dar continuidade ao plano de expansão. E, assim, a Fábrica de Pães Congelados Tempo irá introduzir uma etapa no processo milenar de fabricação de pães, que é o congelamento, aumentando a eficiência do setor de padarias dos supermercados e atacarejos, reduzindo investimentos, custos e aumentando a rentabilidade do setor.

Para Breno, a expertise do Grupo é comercializar produtos através do canal B2B Padarias, segmento que atuamos através da França Distribuidora há 34 anos. “Com a evolução da tecnologia e mudança de hábito dos consumidores, procuramos nos preparar, contratando consultorias especializadas e capacitando nossos gestores para seguirmos o compasso natural da panificação que é produção em escala, garantindo a qualidade”, afirma.

Segundo ele, existem várias unidades fabris no Brasil, e em Sergipe está sendo montada uma Planta com esse objetivo, acreditando que pode contribuir para que o comerciante varejista possa oferecer um mix adequado de produtos panificação para os clientes, com qualidade. Questionado sobre se esse é um reflexo do setor em si ou um caso isolado, Breno explica que a Associação Brasileira de Atacadistas Distribuidores divulga mensalmente um banco de dados do setor, que retrata o desempenho do segmento atacadista em um período.

Breno França: “com a evolução da tecnologia e mudança de hábito dos consumidores, procuramos nos preparar”

CONSUMO
Esses negócios, embora não possam, sozinhos, salvar a economia, contribuíram para amenizar a queda no consumo de outros bens. “O confinamento em nossas residências exigiu apenas o consumo básico, ou seja, de extrema necessidade. Deixamos de consumir os produtos considerados supérfluos e alguns serviços, como academia, salão de beleza, bares, restaurantes e de fazer viagens”, justifica. 

Nesse contexto, os negócios voltados para a internet também tiveram certo aumento, o que o economista vê como uma tendência. “As empresas mudaram a forma de ofertar os seus produtos e os consumidores mudaram a forma de consumir, com o uso dos aplicativos”, pontua. 

“Os escritórios físicos irão diminuir, o home office irá aumentar, assim como no setor da educação será cada vez mais virtualizado”, completa. Além disso, com o uso cada vez mais intenso da internet, isso está exigindo um aumento no serviço de entrega (delivery), passando ser uma grande oportunidade de negócio.

PREJUDICADOS
Para Josenito, por outro lado, o setor de turismo foi o primeiro a ser atingido pela crise e será o último a se recuperar. Aeroportos, hotéis, pousadas, agências de viagens e o setor de eventos estão entre os setores que terão mais dificuldade de recuperação. “Voltarão, mas de forma bastante lenta”, alerta.

Também economista, Emerson de Sousa Silva , mestre em Economia e doutor em Administração, é mais cético com relação à recuperação econômica, mesmo que para ele alguns segmentos apresentem bons resultados. “Do ponto de vista conjuntural, em graus diversos, os pequenos e médios terão mais dificuldade de se reerguer, porque a sua pequena escala de produção vai aumentar de modo considerável os custos médios e, consequentemente, os seus preços de oferta. Do ponto de vista estrutural, todos terão dificuldade”, avalia Emerson.

Essa visão decorre do fato de que, para  Emerson de Sousa Silva, sem o incentivo ao consumo das famílias e sem a retomada do processo de distribuição de renda paralisado em 2016, não é possível falar realmente em recuperação da economia. “Porque qualquer medida que seja assumida, vai apenas tornar mais ricos os já muito ricos”, opina.

PIB
Para o profissional Emerson de Sousa Silva, um dado resume bem esse cenário: muito provavelmente, com base em informações divulgadas pelo Banco Mundial, o povo cubano encerrará 2020 com um Produto Interno Bruto - PUB - per capita superior ao do povo brasileiro.

“Ou seja, eles serão mais ricos do que nós”, observa. “Apenas para se ter uma ideia disso, em 2013, o nosso PIB per capita era 80% superior ao cubano. Mas, então, o brasileiro decidiu mudar a nossa administração política e, de lá pra cá, essa diferença desapareceu”, compara o economista.

Mesmo com tais ponderações, Emerson Sousa admite que existem o que os analistas chamam de negócios resilientes e os não-resilientes. “Um exemplo clássico dessa situação: após a emergência da pandemia, as ações da Zoom dispararam nas bolsas norte-americanas, enquanto isso, a EventBrite viu despencar o seu valor de mercado. Dessa forma, negócios que possam reconverter suas rotinas de modo a se adaptarem às necessárias medidas de distanciamento social sofrerão menos do que aqueles que não terão essa facilidade”, argumenta.

Em contrapartida, medidas de higiene podem se tornar um diferencial de negócios. Sob essa ótica, empresas que mostrarem maior proatividade nessa área poderão atrair mais clientes do que seus concorrentes. Porém, há um senão nessa história, segundo Emerson: o nível de renda. “Isso vai fazer mais sentido para empresas que atendem estratos sociais de maior renda mensal, uma vez que esses consumidores olham para outros fatores para além dos preços”, diz.

Emerson Sousa: “negócios que possam reconverter suas rotinas de modo a se adaptarem às necessárias medidas de distanciamento social sofrerão menos”

MERCADO EM CASA
Larissa Pereira dos Santos, bacharel em Direito, é a empresária por trás do Mercado Aju, empresa que surgiu em agosto de 2019, no São Conrado, Conjunto Orlando Dantas, mas que teve a inauguração praticamente junta à pandemia. Pensando em desistir por causa das incertezas do momento, ela investiu na entrega dos produtos.

“Nossa ideia principal sempre foi o delivery, pois nossa equipe queria trazer uma novidade para Aracaju e como consequência fazer com o cliente tivesse a oportunidade de realizar as compras na comodidade do seu lar”, destaca. Era exatamente o que a pandemia impunha.

Hoje, a empresa vem se consolidando e crescendo. “Inclusive, estamos abrindo um supermercado físico no Orlando Dantas, pois no início éramos 100% online. Nossas redes sociais hoje são um facilitador de vendas”, reconhece. 

Larissa não tem dúvidas de que foi uma decisão acertada mesmo nesse momento de pandemia. “Apesar de a crise ser uma realidade no nosso país, acredito que para o Mercado Aju foi capaz de entrar no mercado como um todo. Caso não tivesse feito isso, meu negócio estaria no papel, e meu sonho de ter um delivery ficaria adiado por um bom tempo”, afirma Larissa.

REINVENÇÃO
Quem também precisou se reinventar foi a Kitanda Santa Tereza, que existe há mais de 25 anos, surgiu na garagem de casa e foi crescendo. “Já fomos maiores, mas com muitas crises no mercado acabamos nos readaptando em meio à concorrência. Mudamos a estratégia e agora também somos digital”, resume Tereza Raquel, diretora da Kitanda. 

Segundo Tereza Raquel, nos primeiros dias da pandemia o impacto foi gigantesco: “as vendas estavam fracas e meu pai até pensou em fechar as portas. Acabei dando a ideia para ele fazer delivery nos bairros mais próximos, ele aceitou. Fiz um panfleto e usei a internet em favor dele”, conta. 

No primeiro dia de delivery, foram três entregas. “Meu pai ficou super feliz, no começo a ideia era ele mesmo fazer o atendimento no Whatsapp, mas o delivery no segundo dia teve uma proporção maior do que esperávamos e eu acabei ajudando”, lembra Tereza. 

ESTRATÉGIA
Ela é publicitária e já vinha há algum tempo dando dicas ao pai, que tinha receio das mudanças. “Com a crise que se aproximava junto da pandemia, ele não teve alternativa. Confiou em mim como publicitária e me deixou gerir toda estratégia do delivery”, diz.

Tereza aliou praticidade, inovação e atrelou o que tem de melhor na Kitanda - os produtos e o carinho com o cliente. “Costumo dizer que a crise da pandemia me fez tirar do papel todos os projetos que eu sempre pensei em várias áreas. Adaptei tudo ao meu comércio, meus clientes e afirmo que hoje pioneiros aqui em Sergipe no quesito kits de feiras", comemora. 

Desde a pandemia, as vendas aumentaram em 100%. “Só nos 10 primeiros dias, consegui ultrapassar a meta mensal física do meu pai nos últimos 3 meses, só com o delivery. É praticamente outra empresa dentro da empresa do meu pai”, enfatiza Tereza Raquel. 

Larissa Pereira: “estamos abrindo um supermercado físico no Orlando Dantas, pois no início éramos 100% online”