Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

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Parques dão mais vida a Aracaju e especialistas veem a cidade como bem servida

REVITALIZAÇÃO
Os recursos para a revitalização integram o programa “Construindo para o futuro”, através do qual serão executados projetos de mobilidade urbana, habitação, sustentabilidade, saúde e educação. A reforma da Sementeira é um dos projetos prioritários do Planejamento Estratégico da atual gestão.

A empresa de consultoria Masterplan, vencedora da licitação, é a empresa responsável pelo projeto arquitetônico do parque. Com essa revitalização e os futuros investimentos em outros parques, Aracaju se tornará uma cidade ainda mais agradável, onde, como é traduzido na obra Capitalismo Natural: criando a próxima revolução industrial, 1996, possa ser possível: “imaginar por um momento um mundo em que as cidades tenham se tornado silenciosas e tranquilas porque os automóveis e os ônibus circulam sem ruído, os canos de escapamento não emitem senão vapor de água e as obsoletas vias expressas deram lugar a parques e áreas verdes”.

Áreas verdes conferem mais bem-estar à população
Parque dos Cajueiros ainda é gerido pelo Estado, mas está em trâmite para ser transferido para a Prefeitura

REUNIÃO
Além disso, Edvaldo lembra que o município contará com uma nova área de preservação na cidade, que é o Parque Ecológico do Poxim, uma iniciativa conjunta com a Energisa. “Trabalhamos nos últimos três anos na arborização da cidade de uma maneira geral, na extinção de centenas de áreas de descarte irregular de lixo e espero em breve poder anunciar mais novidades com foco na preservação ambiental e na ampliação de áreas verdes na nossa cidade", ressalta o gestor.

Para tratar da revitalização do Parque da Sementeira, ele se reuniu, na última semana, por videoconferência com os dirigentes da consultoria responsável pela elaboração do projeto arquitetônico, quando foi apresentado ao gestor à comissão de secretários municipais e técnicos a proposta de reforma do espaço, que terá sua área verde ampliada e que passará a contar com novos locais para práticas esportivas, atividades culturais e de lazer.

Pelo projeto, o Parque da Sementeira será totalmente redesenhado, com adensamento da massa vegetal, criação de vários bosques, com flora do cerrado, flora da caatinga, flora da Mata Atlântica, flora exótica, entre outras. O parque ainda passará a contar com quatro circuitos de circulação, voltados para caminhada, corrida, ciclismo e patinação.

ATIVIDADES
Na proposta, ainda estão incluídas quadras de esporte, pistas de atletismo e skate, labirinto verde, espaço pet, playgrounds, anfiteatro, praças, horto, orquidário, jardins temáticos, píeres no lago, além de novo estacionamento e a construção de um centro cultural e um espaço multiuso.

“Nosso parque será transformado num centro de sustentabilidade. Fiquei muito feliz pois começa a tomar forma a transformação de um dos espaços mais importantes da nossa cidade. Retiraremos os prédios públicos existentes e ampliaremos de maneira significativa o espaço para o uso dos aracajuanos, para a prática esportiva e para a socialização”, afirma Edvaldo.

A execução do projeto se iniciará pela construção de um novo cercamento do parque, uma vez que a estrutura atual se encontra bastante deteriorada. “Nossa previsão é de que até o fim do mês de agosto, cheguemos a uma proposta final sobre o novo cercamento do parque, para, até outubro, iniciarmos as obras. É um projeto lindo, com o qual sonhamos há muito tempo e para o qual conquistamos os recursos junto ao Banco Interamericano do Desenvolvimento, o BID”, ressalta.

Roberto Messias: “além de abrigar o único zoológico do Estado, a área ainda compreende as instalações da cavalaria da Polícia Militar do Estado de Sergipe\"

ESTRUTURA
O Parque dos Cajueiros é um dos mais tradicionais de Aracaju e possui uma pista de skate, uma quadra poliesportiva, uma quadra de tênis, um campo de vôlei de areia, um campo de futebol. Além de diversos equipamentos de ginástica/academia e brinquedos infantis.

Eduardo define o local como de suma importância para a população aracajuana. “Ele é um dos cartões-postais do município de Aracaju. Portanto, administrar esse espaço é sempre um desafio desde as atividades mais simples. Acredito que estar frequentemente em contato com os visitantes, donos de estabelecimentos e trabalhadores locais, ajudam a ter uma visão sistêmica do local e a resolver eventuais ocorrências, além de desenvolver projetos”, justifica.

Ele afirma que buscar realizar eventos e parcerias com organizações não-governamentais ou instituições privadas são essenciais para gerar valor ao parque, aumentar a procura pelos estabelecimentos que estão situados lá e elevar o número de visitantes.

“Um exemplo foi a cessão de uma sala para a organização de um gatil para o projeto "Gatinhos do Parque" que presta um importante serviço no cuidado de animais abandonados no parque. Outro, foi a organização de eventos como a "I Feira Colabora" junto ao Instituto Canto Vivo. Ressalta-se também a cessão do espaço para eventos de maior porte como a Virada Cultural, que contou com a presença mais de dez mil pessoas”, lembra.

PARQUE DA CIDADE
Já o Parque da Cidade Governador Rollemberg Leite é gerido pela Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe – Emdagro. O Governo do Estado realiza a manutenção do espaço através de 24 funcionários que cuidam da estrutura física da área, além de três Médicos Veterinários e um Engenheiro Agrônomo.

Resquício de Mata Atlântica em Aracaju, o Parque é Área de Preservação Ambiental, considerara de grande importância para pesquisas científicas. Por isso, a Emdagro mantém parcerias com Universidades e Centros de Estudos para o desenvolvimento da fauna e da flora no local, com participação de alunos e professores.

Segundo Roberto Messias, diretor Administrativo e Financeiro da Emdagro, importante ponto turístico da capital, a área conta ainda com o mirante da Santa e um teleférico gerido por uma empresa privada, que dá acesso privilegiado à vista de toda a cidade. "O local também é muito utilizado por amantes do esporte. E, além de abrigar o único zoológico do Estado, a área ainda compreende as instalações da cavalaria da Polícia Militar do Estado de Sergipe", pontua Roberto.

Ele ressalta que o Governo do Estado avalia a possibilidade de implantar, no Parque da Cidade, o modelo de gestão de parceria público-privada - PPP -, como foi recentemente aplicado à Central de Abastecimento – Ceasa – de Itabaiana, e realiza estudos de viabilidade para esta finalidade.

NOVOS INVESTIMENTOS
A Prefeitura de Aracaju, para dar vazão às novas demandas com a agregação de alguns locais à sua gestão, a Emsurb criou um nova Diretoria, a Diretoria de Orlas e Parques, se deu pela necessidade em gerir as novas áreas que foram transmitidas pela Superintendência do Patrimônio da União em Sergipe – SPU –, passando assim a integrar a administração municipal, são elas: as Orlas (Atalaia, Pôr do Sol, Viral, Orlinha do Bairro Industrial e a Orla Porto Dantas) e os Parques Ecológico do Poxim e futuramente o Parque dos Cajueiros.

Mas o prefeito Edvaldo Nogueira quer mais para as áreas verdes em Aracaju. “Uma cidade humana, inteligente e criativa é também uma cidade sustentável. Então, é amparado nesta ideia que estamos trabalhando, de maneira muito consistente, na revitalização e ampliação das áreas verdes e parques públicos. É com muita felicidade que investiremos R$ 20 milhões na maior reforma pela qual o Parque da Sementeira já passou”, afirma ele ao JLPolítica.

Edvaldo admite que é “um projeto muito audacioso”. “Prevê como plano principal ampliar as áreas verdes do parque, ao mesmo tempo que retiramos os prédios públicos lá existentes. Então, vai se tornar um parque com mais bosques, horto, orquidário e com a ampliação das áreas de prática esportiva e de lazer. O Parque da Sementeira vai se tornar um centro da sustentabilidade de Aracaju”, detalha o prefeito.

Eduardo Costa: “Administrar esse espaço é sempre um desafio desde as atividades mais simples”

ESPAÇOS MUNICIPAIS
Atualmente, estão sob administração do município de Aracaju o Parque Governador Augusto Franco, conhecido como Sementeira, e o novo Parque Ecológico do Poxim, que estava com a inauguração prevista para março, dentro da programação do aniversário da cidade, mas em razão da pandemia não foi possível.

Segundo Luiz Roberto, a manutenção desses espaços é muito importante para a cidade, pois áreas verdes e parques constituem espaços fundamentais para a qualidade de vida de todos. “Estes espaços trazem maior conforto ambiental, diminuem o calor da cidade, são áreas que proporcionam atividades culturais, educacionais, a prática de atividade física e estimulam a conservação da natureza”, avalia Luiz Roberto.

É da Prefeitura, por meio da Emsurb, a responsabilidade por toda a gestão dos parques, desde a manutenção das áreas verdes, dos equipamentos e edificações, até a organização interna, de atividades e eventos desenvolvidos nos parques. Segundo ele, a revitalização proposta pela Prefeitura é um anseio antigo da população e vem de encontro às atuais demandas do nosso tempo.

INTERAÇÃO
“O parque, como qualquer equipamento público, acompanha a dinâmica da sociedade e é um instrumento permanente de interação entre as pessoas, os animais e a natureza, refletindo os costumes da cidade”, analisa. No entanto, segundo ele, não há pretensão de essas mudanças serem realizadas em outros parques também.

Luiz Roberto lembra que todos os parques estão fechados. “Logo após o início da pandemia, o Parque da Sementeira foi fechado (fim de março, anunciado dia 23) e o Parque Ecológico do Poxim que foi entregue pela Energisa para a Emsurb no dia 14 de março, e também permanece fechado devido à impossibilidade de inauguração em razão da pandemia”, ressalta.

Durante todo esse período, as atividades de manutenção essencial estão sendo mantidos. “Os serviços nas áreas verdes e melhorias nas estruturas de ambos os parques, seguindo todas as prevenções, protocolos de segurança e orientações dos órgãos de saúde para que o labor nessas áreas não fosse prejudicadas/afetadas, bem como, seguimos com planejamentos para ao longo do ano”, explica.

ADMINISTRAÇÃO
Eduardo Costa Burle, bacharel em Ciências Biológicas, é o gestor do Parque dos Cajueiros, que ainda está sob gestão da Superintendência Especial de Esportes do Estado, mas está em processo de tramitação para ser entregue à Prefeitura de Aracaju. Segundo Eduardo Costa, a manutenção do espaço depende fundamentalmente das necessidades pontuais da área, embora existam funcionários dedicados a serviços de limpeza nos dias úteis. 

Quanto ao quesito segurança, existem dois postos policiais no local, sendo estes da Polícia Ambiental e do Batalhão de Turismo. “Todas as ações são tomadas em consenso entre os gestores responsáveis pelo parque e com a Superintendência, com investimento em manutenção proveniente de recurso do Estado, resultado de uma somação de esforços entre a Secretaria da Educação, a Superintendência de Esportes e a Sedurbs”, explica.

Os serviços gerais, como encanamento, parte elétrica, podas ou manutenção de lajes, são realizados sempre que necessário.
“Atualmente, 11 pessoas são exclusivamente responsáveis para a manutenção diária do parque, embora existam mais profissionais envolvidos indiretamente”, revela Eduardo.

Parque da Cidade é um dos maiores, mas não o mais visitado

BOAS SENSAÇÕES
“É simples testar: basta experimentar o sol do meio dia embaixo de uma boa sombra e fora dela. Experiência que qualquer um de nós pode fazer”, sugere. “Mas os grandes parques em cidades praianas acabam sendo preteridos, especialmente em cidades como Aracaju, com muitas praias e estuários majestosos que acabam atraindo a maior parte da população, ficando os parques sem uso e manutenção, exceto aqueles, como disse anteriormente, de fácil acesso e que são utilizados para esportes e caminhadas”, reitera.

Os espaços verdes, segundo a profisisonal, acalmam a mente, reduzem o estresse urbano, põem as crianças em contato com a natureza, atraem pássaros e tornam as cidades mais amigáveis, induzindo ao ciclismo e a caminhadas atendendo ao pedestre que é, de fato, o grande protagonista da urbe. “As cidades, antes do fenômeno recente do banho de mar, anteriormente usado apenas como profilaxia, fizeram grandes projetos de parques justamente para contrapor à excessiva urbanização que as tranformava em lugares inóspitos”, ressalta.

Como exemplo, tem-se o Central Parque em Nova York, o Passeio Público, o Campo de Santana e o Parque Lage, no Rio; o Ibirapuera, em São Paulo; e o pequeno Parque Olímpio Campos, em Aracaju, construídos dentro desse espírito de trazer a natureza pra dentro das cidades. “Em primeiro lugar, os parques existentes precisam de cuidados, manutenção e segurança para não quedarem esquecidos e virarem áreas perigosas. Precisam também de algumas inovações atrativas para a população, uma vez que a concorrência com as praias é uma realidade em cidades litorâneas”, destaca.

MENOS CONSTRUÇÕES
Ela lembra que, em 2001, fez um projeto de Parque Urbano na Coroa do Meio, denominado ludicamente de Museu do Mangue que, construído, não chegou a ser implementado e permanece esquecido. “Precisamos de menos construções e pavimentações e mais cuidados de manutenção, criação de programas atrativos como trilhas, arvorismo, catalogação de espécies para explorar, também o aspecto pedagógico dessas áreas atraindo as escolas. Várias ações podem ser implementadas mas a principal delas é a questão, a meu ver, da segurança que acabam sendo fator determinante da evasão do pública dessas áreas”, esclarece.

Quanto ao anúncio do prefeito Edvaldo Nogueira de remodelação no parque da Sementeira, Ana Libório diz que, pela privilegiada localização, em área “nobre” da cidade, o espaço acaba sendo a vitrine de todas as gestões, que pensam sempre em investir. “O projeto da atual gestão não conheço, ouvi comentários mas creio que não chegou a ser apresentado como na gestão anterior, do arquiteto Jaime Lerner, que previa grandes construções administrativas para a área”, questiona.

Para Ana, não deveriam ser feitas grandes construções ou mesmo pavimentação em áreas de parques e praias. “Os parques precisam de árvores, caminhos, lagos e alguns equipamentos pequenos e pontuais de apoio ao público para conforto e segurança e, a depender da área e do tipo de uso, equipamentos desportivos”, aconselha.

Isso porque, para ela, a essência mesmo dos parques é a fruição e contemplação da natureza. “Nos salvando do ambiente inóspito e estressante da selva de pedra em que se transformaram as cidades quando, a partir do século XX, passaram a ser desenhadas para os automóveis esquecendo do seu principal personagem: o pedestre”, critica.

PÓS-PANDEMIA
Ricardo Mascarello acredita que no pós-pandemia o espaço público coletivo com arborização e áreas verdes como praças e parques serão muito valorizados pela população. “Podemos apontar para uma ressignificação frente a valorização dos espaços verdes de convívio, trocas sociais, exercícios (caminhar, correr, pedalar), esporte e lazer”, afirma.

Isso porque, de acordo com ele, a liberdade e o desfrute dos espaços verdes no urbano terão um sensível apreço pelos cidadãos viventes das grandes cidades. “Construo um teorema onde a vontade do cidadão pós-pandemia + uma vontade política de gestão colaborativa e generosa serão = a vitalidade, a constituição e a regeneração da infraestrutura verde nas cidades”, analisa.

Luiz Roberto Dantas, presidente da Empresa Municipal de Serviços Urbanos - Emsurb –, tem o mesmo entedimento. Segundo ele, esses espaços recebiam, em média, 1 mil visitantes por dia. E, no pós-pandemia, deverão ser ainda mais demandados pela população. “Acreditamos que após a retomada das atividades os parques serão extremamente demandados, visto que, depois de um período de isolamento social, as pessoas necessitam de convívio, práticas esportivas e contato com a natureza, retornando gradativamente à vida normal”, justifica.

Edvaldo Nogueira: “é com muita felicidade que investiremos R$ 20 milhões na maior reforma pela qual o Parque da Sementeira já passou”

SUGESTÕES
Ricardo Mascarello ressalta que Aracaju foi a última capital do Brasil a ter uma Secretaria Municipal do Meio Ambiente e, segundo ele, possui um histórico de poucos planos de arborização urbana e um certo descaso da população frente à valorização ambiental e infraestrutura verde. “As questões vinculadas ao planejamento da cidade são essenciais para Aracaju avançar nesta questão: é preciso instituir um plano de arborização urbana para ser colocado em prática e que vire lei com vistas a sua implantação processual e contínua”, sugere.

“Também deve ser instituído no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano a exigência da doação de áreas verdes quando do parcelamento do solo acima dos três mil metros quadrados e a exigência de projeto paisagístico na implantação de condomínios horizontais e verticais. O incentivo ao uso de coberturas verdes nas edificações também é uma possibilidade contemporânea frente à pegada ecológica e a bioarquitetura”, completa Ricardo Mascarello.

Com relação à população, ele diz que é preciso uma abertura processual e contínua de culturalização educativa para o incentivo e apreço aos elementos arbóreos que perpassem o plantio e seu crescimento, como uma cartilha colaborativa juntamente com um trabalho nas escolas e bairros da cidade.

“As práticas pedagógicas com as comunidades, juntamente com a orientação para um plantio de espécies adequadas aos canteiros e calçadas, abriria caminhos e perspectivas para uma relação colaborativa onde o cidadão é o protagonista e a gestão o aparato técnico. A gestão fornece os insumos e a população planta e cuida”, aconselha.

PROJETOS
A implantação de projetos específicos, segundo ele, também seria de fundamental relevância para o enfrentamento e elevação do índice de áreas verdes. “Seria importante a constituição de pequenos jardins botânicos espalhados nos diversos territórios da cidade, a conservação e instituição de Parques Ecológicos, como o Parque do Poxim e o Parque das Mangabeiras no Bairro 17 de Março, e a implantação de um grande Parque no Morro do Avião no bairro Santa Maria, contemplando uma regeneração urbana”, sugere.

Para ele, também seria importante a retirada da cerca do Parque da Sementeira para criar atratividade, integração do verde e convite ao cidadão como já foi feito anteriormente com o Parque dos Cajueiros, que era cercado”, opina. Ricardo acredita que todos esses aspectos colocam Aracaju numa posição intermediária em relação às demais capitais do Nordeste quando o assunto são os parques e as áreas verdes.

“Encontra-se melhor servida que Maceió e Recife, mas está abaixo de João Pessoa, Salvador e Fortaleza. É importante a reflexão, na conjuntura nacional, que as capitais nordestinas se encontram abaixo da média. As principais cidades que se destacam no cenário nacional são exemplos como Belo Horizonte, Campinas, Curitiba e Porto Alegre”, compara.

PAISAGEM URBANA
Arquiteta e urbanista, especialista em Planejamento Urbano e Restauro de Monumentos e Conjuntos Históricos e sócia com Gândara Jr da Libório e Gândara Ateliê de Arquitetura, Ana Libório diz que, apesar de pouco arborizada, Aracaju é, de fato, privilegiada com uma extensa massa de áreas verdes composta pelos manguesais que lhe conferem paisagem urbana peculiar - “basta ver num sobrevôo a cidade cravada num grande charco verde”, diz ela.

Essa paisagem natural é complementada pelos Parques da Cidade, Sementeira, Cajueiros, que, segundo Ana Libório, nem sempre utilizados pela grande massa da população, o que é comum em cidades praianas, e acabam, por vezes, esquecidos pelos órgaos públicos quanto à manutenção, reforçando a ideia de áreas abandonadas e até perigosas. “À exceção da Sementeira, dos Calçadões da 13 de Julho, da Orla e do Porto D’Antas que pela localização beira mar-rio acabam sendo bastante utilizados e consequentemente recebem mais atenção”, ressalta.

Do ponto de vista urbanístico, para Ana Libório, é super importante a existência de grandes massas verdes numa cidade para a manutenção da qualidade de vida, uma vez que a arborização protege da excessiva radiação solar, especialmente no Nordeste, amenizando temperaturas, faz a captura do carbono purificando o ar, reduz a poluição sonora e especialmente transforma as cidades em lugares aprazíveis quando bem sombreados.

Ana Libório: “os grandes parques em cidades praianas acabam sendo preteridos, especialmente em cidades como Aracaju, com muitas praias e estuários majestosos”

PRAÇAS E PARQUES
“Também é evidenciada a constituição de algumas praças com presença abundante de arborização, como as da Bandeira, Camerindo, Tobias Barreto e algumas do Conjunto Augusto Franco, que tiveram preocupação de plantio na origem do conjunto”, ressalta. O Parque da Cidade, segundo ele, se destaca por uma rica flora que, por sua densidade arbórea, configura um microclima à parte do restante da cidade, constituindo uma expressiva fauna decorrente desta abundância.

O Parque dos Cajueiros, de acordo com Ricardo, também preserva uma rica diversidade de espécies arbóreas em seu pequeno bosque, que dialoga com as interfaces do manguezal da Maré do Apicum. Já o Parque da Sementeira, por mais que tenha um conjunto arbóreo - ainda mais presente no atual Horto da Sementeira -, para ele, ainda carece de se constituir em um verdadeiro pulmão verde, a exemplo do Central Park em Nova York, ou mesmos parques urbanos como em Curitiba, Goiânia, Belo Horizonte e Porto Alegre.

“Podemos dizer que esta constituição dos três parques aliados às praças que contemplam arborização constituem uma expressiva presença de áreas verdes na cidade de Aracaju”, resume. Distante destes exemplos, a principal problemática de Aracaju, para Mascarello, é a falta de pulverização espacial quanto à disposição das áreas verdes nos diversos territórios da cidade. Isso porque, segundo ele, se por um lado existe fácil acesso para alguns cidadãos aos parques e praças arborizadas, para a grande maioria dos aracajuanos há uma profunda carência de acesso e desfrute deles.

MAIS VERDE
“A maioria dos assentamentos precários não possui praças e arborização nas calçadas. Em muitos bairros tradicionais e adensados, a exemplo do Siqueira Campos, 18 do Forte e América, também não são evidenciadas árvores nas calçadas, aliadas à pouca presença de praças com áreas verdes significativas”, justifica.

Em uma semântica analítica, ele destaca quatro condicionantes principais frente ao desprovimento de verde: primeiro, a realidade das carências ambientais dos assentamentos precários; segundo, a falta de um programa de arborização urbana; terceiro, uma despreocupação da sociedade em geral frente a razões culturais.

A quarta é a falta de um Plano Diretor que exija doação pública de área verde para terrenos acima de 3 mil metros quadrados quando do parcelamento do solo. “Tudo isso sem falar de novos empreendimentos imobiliários que avançam sobre o bioma natural de Aracaju”, critica.

BENEFÍCIOS
Para além da questão estética em si, as áreas verdes são constituições essenciais para a qualidade de vida dos seres humanos nos centros urbanos, com extenso leque de benefícios plurais e singulares, como a qualidade do ar, o sombreamento perante ao clima e proteção solar, as ambiências e paisagem da cidade, o conforto de luminância, os efeitos estéticos, a melhoria para absorção das águas, as relações de conforto acústico e a consequente qualidade ambiental para o meio urbano.

No caso de Aracaju, uma cidade com variações térmicas bastante estáveis – oscilam de 22° a 30° nas distintas estações do ano e com uma brisa contínua –, fica evidenciado que um cidadão na sombra de uma árvore estará em perfeito conforto térmico.

“Tecnicamente chama-se este fator de sombra ventilada. Além do conforto ambiental térmico e da qualidade do ar, a atratividade da fauna e a exuberância das cores e texturas é fator de deleite para a poesia urbana e a organicidade. Uma aproximação artificial do natural frente a desnaturalização que é o urbano”, define o profisisonal.

Ricardo Mascarello: “são espaços de vitalidade urbana para as crianças e idosos desfrutarem da generosidade que os elementos naturais oferecem aos seres urbanos”

Especialistas acham a capital sergipana deve ser mais demandada nessas áreas no pós-pandemia

Agora que a maioria das pessoas está presa em casa, a ideia de uma ida ao parque, de um passeio ao ar livre, é ainda mais agradável. Com os parques fechados e os espaços públicos interditados, não há como visitá-los. Mas o pós-pandemia promete uma valorização desses locais, tanto por parte da gestão pública, que tem investido e agregado nessas áreas, quanto da população, que, certamente, estará com ânsia em compartilhá-los.

O certo é que essas áreas verdes são de fato não o pulmão de uma cidade, mas o coração. É o que pensa o arquiteto e urbanista Ricardo Mascarello. “As relações orgânicas e fisiológicas dos seres humanos são via de regra representadas em um bem-estar do homem junto aos elementos naturais. A contemplação de uma floração, a forma de uma semente, as cores e os aromas de uma flor ou fruto nos aguçam os sentidos e nos transpõem para questões latentes necessárias aos seres vivos”, afirma.

Essa frase de Ricardo, que atua na Epresa de Desenvolvimento Socioespacial Cidades Visíveis, com ênfase em Planejamento Urbano, define a importância que espaços verdes têm em meio à cidade grande. Mas não é só isso: nas questões mais funcionais, elas permitem a redução de um ruído em uma avenida, garantem avistar um pássaro em meio a uma viagem de ônibus, atrair encontros em uma praça. Representam, assim, uma relação com a vida frente aos ciclos naturais do planeta, constituindo uma relação medicinal para os seres urbanos.

Áreas verdes, como parques e praças, são fundamentais nos centros urbanos