Reportagem Especial

Tanuza Oliveira

Compartilhar

“Pós-quarentena” deixa rastro de dúvidas e danos econômicos e mentais

CUIDADO COM A VIDA
Com a pandemia, infelizmente, muitos cidadãos enfrentaram incertezas econômicas, desemprego, sofreram com o distanciamento de entes queridos ou enfrentam a convivência em um lar abusivo. Isso tudo, somados a fatores/problemas já existentes na mente, levaram ao suicídio.

“Setembro Amarelo está aí, uma campanha super importante, mas a prevenção ao suicídio é algo que precisamos estar atentos sempre, pois nunca sabemos quando uma pessoa vai adoecer e chegar a extremo de tirar a própria vida. Lógico, a pandemia fez com que algumas pessoas cometessem suicídio, mas não especificamente por quase da quarentena e sim de outras coisas que não tinham sido digeridas”, explica Maísa Amor.

A psicóloga alerta que as pessoas nunca devem ignorar as falas, gestos diferentes – que apontam para uma depressão – de pessoas próximas. “O indivíduo é muito vulnerável. Pode estar, aparentemente, bem agora e ali dentro guardando uma angústia. E, infelizmente, temos muitas pessoas resistentes, que acham que procurar psicólogo, terapia é besteira. Mas não é”, reforça.

Psicóloga Maísa Amor: “prevenção ao suicídio é algo que precisamos estar atentos sempre”
Marco Pinheiro, presidente da Acese: “É improvável, mas é possível haver uma nova quarentena”

PROCURA POR TERAPIA
“Tudo gira em torno da ansiedade. Lá no início mesmo, ninguém sabia o que ia acontecer. Ficava aquele medo do desconhecido, pois não se havia muita informação sobre o vírus. Um simples andar no elevador já era motivo de pavor para muitos, pois não se sabia se aquela outra pessoa, que estava li no equipamento, tinha o vírus, já que qualquer um podia estar contaminado. As pessoas também ficavam angustiadas, pois existia uma rotina que foi mudada completamente. Agora, mais recentemente foi retomada, mas, mesmo assim, com restrições”, relata Maísa Amor.

Com a quarentena, os profissionais que trabalham com a saúde mental - psicólogos, psicanalistas, psiquiatras - tiveram suas demandas aumentadas. “No começo, teve uma evasão, até porque a indicação era “fique em casa”. Mas depois as pessoas voltaram em virtude de outras necessidades de atendimento psicológico que surgiram devido à quarentena. Mas, mesmo assim, meio que desconfiadas, pois não era o habitual ter consulta virtual, via videochamada. Meus pacientes mesmo, num primeiro momento, foram bem resistentes. Mas alguns, quando viram que a coisa estava apertando, procurava ajuda”, afirma.

Especialistas na área da saúde mental são categóricos em dizer que buscar apoio, compreender a raiz do sofrimento e reconhecer que a saúde emocional é tão relevante quanto a do corpo são essenciais para romper fatores que levam a um suicídio.

Pandemia mexeu com a mente de todos, sendo, inclusive, estopim para atos de suicídio

Quarentena gera ansiedade e amplia busca por ajuda psicológica

As sequelas impostas pela quarentena devido à pandemia da Covid-19 são visíveis em todos os setores e, evidentemente, não seria diferente na mente, no emocional de crianças, jovens, adultos e idosos – desacostumados a ficar três, quatro dias em casa e menos desacostumadas ainda a ficar quatro, cinco meses.

Com certeza, a quarentena ocasionou uma violência psicológica agressiva que, se não bem cuidada, pode gerar grandes estragos em pessoas que já tinham um emocional sensível devido a outros fatores.

De acordo com a psicóloga Maísa Campos Amor, o desenvolvimento de sintomas como ansiedade, estresse, pânico, depressão, neste período de pandemia, são comuns, uma vez que os cidadãos tiveram a rotina de suas vidas interrompidas completamente e tiveram que lidar com o isolamento social em suas residências.

Vereador Thiaguinho Batalha intermediou reunião de diretores da Associação de Eventos com a Prefeitura de Aracaju

NADA DE MANIFESTAÇÃO
Inclusive, a Abrape informa que, em momento algum, pensou em fazer manifestação pedindo o retorno dos eventos, como ocorreu em alguns lugares do Brasil. “Até porque os órgãos competentes têm nos atendido, prestando assistência total e mandando informações. Queremos trabalhar em parceria”, informa o diretor.

Para Wadson, neste momento, já há condições do Governo de Sergipe liberar músicas ao vivo em bares, peças teatrais. “Por exemplo, se liberaram missas, atos religiosos, nada contra, a gente pode liberar um espaço para 30% de capacitação, como um teatro”, afirma.

A liberação de música ao vivo nos bares já seria um pequeno alívio para os músicos que sobreviviam ou garantiam complemento de renda com esta atividade. “Se os bares voltaram, se tem o distanciamento, por que não esses artistas estarem ali faturando de pouquinho em pouquinho para voltar a respirar? Estamos indo para o sexto mês parados”, apela o diretor da Abrape.

Wadson Araújo, diretor da Associação de Eventos: “Estamos conversando com os órgãos para que retomada ocorra da melhor maneira”

INTERMEDIAÇÃO PARLAMENTAR
“Intermediei a reunião da Abrape e o prefeito para que sejam encontradas soluções. Queremos levar um plano com embasamento para quando for retomar. O setor de eventos, infelizmente, foi um dos maiores prejudicados com esta pandemia. Foi o que parou primeiro e o que vai voltar totalmente por último”, afirma o vereador.

O parlamentar também chama a atenção da importância do setor de eventos para a economia. “Ele se entrelaça com o turismo, gera arrecadação para cidade. Pois, quando falamos em eventos, não falamos apenas em festa, show. É algo casado com turismo, com os hotéis. Vejam o quanto o nosso Forró Caju, o nosso maior festejo junino, por exemplo, já gerou. São mais de 150 dias sem eventos”, relata Thiaguinho Batalha.

O vereador, assim como a Abrape-SE, deixam claro que esses encontros com o governador e prefeito não significam uma pressão para que os eventos grandes voltem logo antes da vacina. “Estamos conversando com todos os órgãos competentes para que essa retomada ocorra da melhor maneira possível”, reforça Wadson Araújo.

Segundo o superintendente de Comunicação, não havia como o Governo liberar a abertura de bares neste feriado

EVENTOS E ECONOMIA
“Não temos os números específicos de profissionais envolvidos nisso tudo, pois são terceirizados, autônomos. Mas, por exemplo, podemos informar que um show como um todo movimenta mais de 300 pessoas por dia. E, com certeza, fazemos a economia girar, pois movimentamos mais de 70 setores de nossa economia, desde os serviços gerais até o próprio empresário”, informa um dos diretores da Abrape-SE, o empresário Wadson Araújo.

Nas últimas semanas, os diretores da Abrape-SE tanto se reuniram como o governador Belivaldo quanto com o prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira, para discutir a retomada dos eventos e, até mesmo, solicitar ao Governo a avaliação da possibilidade de oferecer uma linha de crédito especial, via Banese, para o setor.

A reunião da Abrape com o prefeito de Aracaju ocorreu por intermédio do vereador Thiaguinho Batalha – que, ao longo de seu mandato na Câmara Municipal, sempre é sensível às pautas ligadas à cultura e entretenimento.

Decisão dos comitês do Governo determina que bares e restaurantes funcionem de terça a domingo, de 6h às 22h

RETOMADA DOS EVENTOS
Outro setor que luta para retomar as atividades, aos poucos, é o de eventos – primeiro a parar e o último a retomar. O “novo normal” em Sergipe ainda não abrange casamentos, formaturas, eventos corporativos. Profissionais ainda estão, totalmente, de braços cruzados, esperando o início da execução de um plano de retomada.

Entre as empresas e os trabalhadores comprometidos com o âmbito de eventos, evidentemente, existe a plena consciência de que shows, entre outros acontecimentos de grande dimensão público, somente voltarão a acontecer com a tão sonhada vacina. Contudo, o setor, no momento, apela para o retorno gradativo, a exemplo da liberação de música ao vivo em bares, consentimento de eventos corporativos de pequeno porte em hotéis, realização de formaturas e casamentos reduzidos.

Segundo a Associação Brasileira de Promotores de Eventos – Seccional Sergipe, a Abrape-SE, não há números claros que apontem a quantidade de empresas, profissionais ligados a eventos no Estado. A certeza somente é de muito dinheiro gira em torno do setor.

Associação de Bares e Restaurantes em reunião com a Secretaria de Estado da Saúde

HORÁRIO DOS BARES
O superintendente faz questão de enfatizar que essa não foi uma decisão unilateral do Governo. “Esse feriado foi apenas uma coincidência, não tem nada a ver com a decisão (de dia de abertura) que já estava tomada. Ninguém lembrou (do feriado, na última reunião). Não foi tocado assunto. Para se fazer outro decreto, os comitês teriam que se reunir extraordinariamente. Mas não havia tempo hábil para isso”, informa. Será mesmo?

Na visão da Abrasel faltou um pouco de empatia por parte de Belivaldo. “Poderíamos fechar na terça e trabalhar na segunda. Não estamos só falando isso para recuperar o “tempo perdido”. Mas é que já temos turistas na cidade. Vai ficar um cenário feio com os restaurantes fechados. E, mesmo assim, o povo na praia, nas ruas. Isso tudo só prejudica ainda mais o nosso setor”, afirma.

Para Bruno Dorea, falta sensibilidade do Governo, inclusive, com relação ao horário de funcionamento dos bares e restaurantes. “Atualmente, abrimos das 6h às 22h. Diminuíram uma hora. Totalmente sem condições. Qual a resposta técnica para essa decisão? Não recebemos. Nosso setor tem tomado pancada há muito tempo”, critica.

TURISMO PREJUDICADO
De acordo com a Superintendência de Comunicação, na próxima quinta-feira, 10, os integrantes dos comitês do Governo irão se reunir e a reivindicação relacionada ao horário de funcionamento dos bares e restaurantes pode entrar em pauta. “Eles podem deliberar sobre a mudança”, informa Givaldo Ricardo.

Bruno Dorea lembra que em outros Estados, como os vizinhos de Sergipe, o funcionamento de bares e restaurantes já ocorre normalmente, claro, respeitando os protocolos sanitários. “Maceió e Salvador está quase tudo liberado. Lá tem música ao vivo, horário normal. Inclusive, a notícia que temos é que a ocupação de leitos de hotel está alta, com turista na rua, população cada vez mais tranquila”, relata.

A Abrasel lamenta o cenário de “atraso” de Sergipe. “Sabemos o quanto não valorizamos o setor turístico. Mas o que sei é que estamos cada vez mais preparados. E queremos colaborar com o Governo, com tudo. Pois, estamos falando de economia. O público e privado precisam andar juntos, se reinventar, dar as mãos para seguir em frente”, reforça.

Bruno Dorea, presidente da Associação de Bares e Restaurantes: “Nosso setor tem tomado pancada há muito tempo”

ABRASEL VS GOVERNO
“Se neste fim de semana repetir o que aconteceu no fim de semana passada, convoco uma reunião extraordinária do Comitê e voltamos a proibir a abertura dos bares e restaurantes. Não estou dizendo que a totalidade deixou de cumprir, mas recebi informações, tanto do Interior quanto da Capital, de estabelecimentos que não estão seguindo os protocolos e estamos vendo casos de aglomeração. Sempre dissemos que, no primeiro momento, estariam autorizados, porém que todos teriam que fazer a sua parte para não precisarmos retroceder”, declarou Belivaldo dez dias atrás.

Porém, o alerta do mandatário do Executivo não foi tão bem recebido pela Associação Brasileira de Bares e Restaurante – Seccional Sergipe, a Abrasel. “O governador, naquela declaração dele, simplesmente, generalizou todo mundo. Sejam fiscalizados e punidos quem estiver fora da lei. A gente defende a fiscalização, pois estamos seguindo o protocolo”, afirma o presidente da Abrasel, o empresário Bruno Dorea.

“Imagine: se um médico age errado num hospital, fecha um hospital ou pune o médico? Se um jornalista erra uma matéria, acaba com a televisão (o veículo de comunicação)? Que puna quem estiver errado e defenda quem estiver certo”, exemplifica o presidente da Abrasel. De acordo com ele, os bares que desrespeitam os protocolos, na sua maioria, é informal.

FERIADO NA SEGUNDA
Ultimamente, a relação entre Abrasel e Governo do Estado não é das melhores. Nesta última semana, a associação recorreu para que as autoridades públicas liberassem o funcionamento dos bares e restaurantes no feriado da Independência, nesta segunda-feira, 7 de setembro. Contudo, sem êxito.

“Infelizmente, não abriremos nesta segunda, pois fica mantido o decreto do Governo. Nos resta obedecer. Fazer o que, né? Respeitamos a decisão do governador. Mas é uma medida que não tinha necessidade”, desabafa Bruno Dorea.

Segundo a Superintendência de Comunicação do Governo de Sergipe, não havia como o Executivo liberar a abertura de bares e restaurantes nesta segunda-feira. “Existe uma decisão tomada pelo Conselho Científico e pelo Conselho de Retomada, que foi publicada no Diário Oficial do Estado. O decreto diz que o funcionamento deve ser: de terça a domingo, de 6h da manhã às 10h da noite”, explica o superintendente de Comunicação, Givaldo Ricardo.  

Restaurantes se adequaram à nova realidade e adotaram protocolos de higienização

IMPROVÁVEL 2º ONDA
Na opinião da médica infectologista Mariela Cometki – coordenadora da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital de Cirurgia e do Hospital Unimed –, o Brasil, bem como Sergipe, não sofrerá uma segunda onda da pandemia, chegando ao ponto de ter que fechar novamente os serviços nãos essenciais.

“Quando se tem a contaminação em manada, após o tempo de duração da imunidade, pode se ter um aumento do número de casos, mas, com certeza, nada igual ao período que vivemos. Pela apresentação de antígenos, a população já tem alguma defesa”, explica a médica infectologista.

Evidentemente, é necessário que os cidadãos respeitem as orientações dos órgãos e profissionais da saúde e redobrem os cuidados contra o novo coronavírus, utilizando máscaras, realizando higienização constante das mãos, e, claro, evitando aglomerações. 

AGLOMERAÇÃO EM BARES E PRAIAS
Contudo, o que se vê em alguns locais, sobretudo, ao ar livre, é população aglomerada e sem a devida preocupação com os protocolos de segurança recomendados. Em Aracaju, nos últimos três finais de semanas, por exemplo, as praias estavam superlotadas, após a liberação da abertura dos bares.

“Locais como praias, praças, parques, o índice de infecção é menor. Mas, mesmo assim, devemos nos proteger. Pois, o risco da contaminação existe em todo lugar. Precisamos estar sempre protegidos”, informa Mariela Cometki.

No último dia 27, o governador do Estado, Belivaldo Chagas, após tomar conhecimento de que bares estão funcionando lotados, alertou de maneira enfática que poderia determinar novamente o fechamento de tais – que foram reabertos no dia 19 de agosto –, caso tomasse conhecimento de novos registros de aglomerações.

Para Mariela Cometki, médica infectologista, Sergipe não sofrerá uma segunda onda da pandemia

“Novo normal” ainda não atinge setor de eventos em SE, empresários amargam prejuízos e buscam retorno gradual

Por Tatianne Melo 
Especial para o JL Política

Com a redução significativa do número de contágio e de óbitos Covid-19 e a consequente retomada quase que total das atividades em Sergipe, a quarentena severa determinada pelo Governo do Estado e Prefeituras para evitar a contaminação em massa da população pelo novo coronavírus, ao que parece, vem chegando ao fim, depois de longos meses de confinamento em casa.

A quarentena, finalmente, aproxima-se de um “termino” – fim total somente com a tão sonhada vacina –, deixando para trás um rastro de consequências negativas entre tudo e todos, seja na esfera financeira, física e mental. Contudo, mesmo todos cientes dos malefícios do isolamento, é possível retomar as atividades, realmente, com segurança neste momento em Sergipe?

Com a permissão da reabertura dos serviços ditos “não essenciais”, como bares, restaurantes, academias, salões de beleza, shoppings, lojas – mesmo com redução de recebimento de público e protocolos de higienização nos estabelecimentos –, os casos de Covid-19 podem aumentar? O comércio pode fechar novamente? Nas últimas semanas, Sergipe vem passando por uma desaceleração geral de mortes, inclusive, quase liderando o ranking positivo entre os Estados do Brasil, com o índice de -47%, perdendo somente para o Rio Grande do Norte, -60%.

Sergipe é o segundo Estado do Brasil com a maior índice de queda de mortes devido à Covid