Aparte
Jozailto Lima

É jornalista há 43 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica.

A CPI do senador Alessandro Vieira, o triunfo do crime organizado e outras lambanças
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Alessandro Vieira: seria bom admitir que não foi feliz

Alessandro Vieira construiu sua imagem pública sobre a promessa do rigor técnico. Delegado, senador, voz recorrente do combate ao crime e em defesa das instituições. Por isso mesmo, o desfecho de sua Relatoria na CPI do Crime Organizado é tão eloquente - e, para muitos, patético: o relatório que deveria mirar facções, milícias e suas engrenagens, terminou politicamente consumido por outro alvo - o STF e outras figuras da República.

Alessandro Vieira acha que não errou da dose, por acreditar que o crime organizado “calça” gravatas finas e flana leve pelos corredores palacianos. Mas, para o senso comum, o problema não foi falta de motivos. Foi excesso de desvio na sua peça!

O parecer apresentado por Alessandro pediu o indiciamento de ministros do STF - que já estão a lhe revidar com chicote grosso - do procurador-geral da República, e acabou criticado, inclusive no debate final da Comissão, pela falta de nomes diretamente vinculados às estruturas centrais do crime organizado.

No fim, a CPI que nasceu para enfrentar facções entregou ao país um relatório que pareceu mais interessado em tensionar a República do que em asfixiar o submundo do crime. E por isso foi reprovado no plenário da própria CPI.

Há nisso um traço de cálculo político difícil de ignorar. Quando uma CPI voltada ao crime organizado desloca seu centro de gravidade para ministros do STF – não é que estes vestais estejam isentos de críticas -, o que se produz já não é apenas uma peça de investigação parlamentar.

Passa a ser uma operação de linguagem, de narrativa – por mais que o bom Alessandro rechace isso. Sai a anatomia das facções, entra a coreografia do embate institucional. Sai o enfrentamento das redes criminosas, entra o espetáculo de um político em busca de cortes virais, frases de efeito e munição para rede social – embora ele mesmo seja maior do que isso.

O resultado foi devastador para a credibilidade do trabalho da CPI. O relatório, repita-se, foi derrotado, a Comissão terminou sem texto final aprovado e a imagem que restou foi a de uma turma que flertou com a gravidade do tema, mas preferiu o atalho do confronto político.

Alessandro, que poderia ter saído da CPI como referência de firmeza técnica, saiu com a marca de quem trocou o combate pelo holofote. De quem meteu os pés pelas mãos e já levou avexados a vaticinaram que ele morreu politicamente, como se a política fosse um trem cartesiano à flor da pele.

Mas é certo que tudo isso ajuda a explicar por que o relatório do senador Alessandro Vieira soou menos como documento sério, com propostas para combater o crime organizado, e mais como portfólio de posicionamento e criação de conteúdo para rede social – se esta Coluna não está excedendo na leitura.

Na política, há quem trabalhe para produzir resultado e há quem quer apenas repercussão. O parecer do delegado-senador, rejeitado no plenário da própria CPI – no bulbo onde nasceu -, entrou para a segunda categoria.

Fez barulho, tensionou instituições, alimentou bolhas - mas não entregou a contundência que se esperava de uma Comissão criada para investigar o crime organizado em suas formas mais concretas e violentas. Esboroou.

No fim das contas, o país segue convivendo com facções, milícias, infiltração econômica e corrupção de agentes públicos. E o senador Alessandro Vieira, que tinha a chance de produzir um marco parlamentar no enfrentamento a esse sistema, terminou associado a um relatório que se transformou em polêmica mais pelo alvo escolhido do que pelo problema que deveria combater.

Para um senador que sempre vendeu método, sobrou a impressão de muito improviso. Para um delegado, sobrou quase nada! Para os imprudentes de plantão, restou a impressão, meio com cara de torcida organizada, de que ele foi defenestrado da possibilidade de reeleição pro Senado. Cuidado com o andor é bom.

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