
A pesquisa demonstra a amplitude, a heterogeneidade e a diversificação de opiniões dos brasileiros que são, obviamente, movidos pelo viés da emoção
[*] Magno Montte Joaquim
No ensino médio brasileiro um dos assuntos principais da disciplina de Sociologia é o conceito sociológico de Sérgio Buarque de Holanda, o tal do “homem cordial”. Esse cordial vem no sentido de reagir aos eventos da vida através da emoção ou, pelo menos, deixar ela dominar boa parte da razão.
Quando falamos de voto, eleições e temas políticos e ideológicos que envolvem essa atmosfera, principalmente na esfera federal, frequentemente vemos em pesquisas e até mesmo nas reações em redes sociais que as opiniões, aprovações e desaprovações vêm totalmente atreladas a emoção e ao afeto.
Em alguns casos, isso pode ser bom. Num mundo cada vez mais individualista e expositivo, mostra que ainda sabemos ter emoção, receptividade e empatia pelo próximo. Às vezes. E às vezes porque por outro lado, em muitos casos a emoção cega e inviabiliza um contato e um debate melhor.
Frases como “exceção à regra” ou “nem todo mundo” vem caindo em desuso justamente pela construção de opiniões construídas sob emoções e sem o devido olhar da razão. Pensar ou observar que nossas opiniões esbaram em nossas próprias ações - e emoções - é um tanto complexo.
A pesquisa Real Time Big Data divulgada essa semana demonstra a amplitude, a heterogeneidade e a diversificação de opiniões dos brasileiros que são, obviamente, movidos pelo viés da emoção. Essa emoção é despertada pelo noticiário, pelas redes sociais ou pelas próprias vivências – que geralmente vem de tudo isso, noticiário, redes e que tais.
Muito além dos números pela preferência presidencial que mostram o desenho de uma eleição disputada, o brasileiro também foi perguntado sobre assuntos como escala de trabalho, maioridade penal e religião, e os resultados são no mínimo, interessantes.
Quando perguntados sobre a tão falada – e sonhada - redução da escala de trabalho, 71% dos brasileiros se dizem a favor. E isso é independentemente de lado político. A maioria dos possíveis eleitores de Lula, Flávio, Caiado e Zema apoia a redução.
Significa que quem vive na pele a exaustiva escala atual e que muitas vezes limita os momentos de descanso e lazer entende que essa redução é importante. É pensar não só no próprio bem-estar, mas no bem-estar da vizinha e daquela caixa de supermercado que trabalha até tarde.
Quando passamos para o tópico segurança, impressionantes - ou não - 90% dos entrevistados apoiam a redução da maior idade penal. Pesquisas anteriores já mostravam que a segurança está entre as três maiores preocupações do brasileiro e em determinados períodos chega até ser o primeiro lugar, superando economia e corrupção.
Paradoxo: apesar do viés punitivista exposto no tópico segurança, 85% das pessoas querem um presidente que acredite em Deus. Ora ora! Quando essa pergunta é feita entre os possíveis eleitores de cada um dos candidatos, em nenhum deles fica abaixo dos 78%.
E como um ser totalmente cordial, o brasileiro também reconhece que o problema não é só na cobertura desse prédio chamado Brasil. Outros 91% recacham a ideia de que a corrupção é um problema somente da classe política. Ou seja, veem-na como da população como um todo.
Para além dessa pesquisa, podemos supor que se os brasileiros fossem perguntados sobre se apoiavam ou não a descendência política de poder familiar, grande parte diria que é contra e que é necessária uma renovação. Mas o que vemos é que famílias como a Caiado, a Bolsonaro ou a Campos-Arraes frequentemente chegam ao poder através dessa mesma descendência. E aqui eu não faço juízo de valor. Se o filho de um ator observa o ofício do pai e se apaixona por ele, por que não pode acontecer o mesmo com figuras políticas?
São opiniões contraditórias, por vezes até hipócritas, mas se temos um país dividido em questões políticas, essa pesquisa mostra que certas opiniões unem pelo menos três quartos dos brasileiros. Querer que um país continental, com criações, tradições e problemas tão diferentes pense igual, seria no mínimo um pensamento limitado. Seria se cercar de muros construídos com os próprios tijolos. Algumas causas tocam o âmago e a emoção de um povo que por natureza já é cordial.
Cada vez mais somos cheios de certezas, e esse texto é repleto delas, e as emoções são mais um ingrediente que faz essa receita cada vez mais difícil de se tornar um bom prato. Não é que eu esteja defendendo aqui o fim da cognição afetiva. Mas que os afetos venham sob determinados cuidados.
[*] É jornalista formado pela Universidade Federal de Sergipe e atua no Portal JLPolítica & Negócio.










