
[*] Chico César
Hoje não é difícil imaginar que já pairassem no ar sugestivas nesgas das muitas e belas canções eternizadas por Luiz Gonzaga antes que ele as plasmasse definitivamente em nossas vidas e nosso imaginário na forma de toadas, aboios, baiões, xaxados, polcas, xotes, rancheiras, maracatus, cocos, rastapés e um infindável caleidoscópio de ritmos que voam do Nordeste para o mundo.
Estavam, porque vêm do povo. De seus encontros brincantes. Das folias, dos reisados, das vaquejadas, das bandas de pífanos, das cirandagens praieiras, dos forrós de latada do tempo de Januário pai dele. E mesmo das tristezuras: os enterros, as canções tristonhas dos cantadores de feira, dos cegos a pedir esmola versando sobre doces donzelas enterradas vivas por madrastas sem coração. Como os grandes compositores russos, Gonzaga mergulhou fundo na alma de seu povo e se tornou sua mais profícua tradução em música.
Arrisco dizer que, para além dos ritmos, muito da riqueza e permanência da obra gonzaguiana está nas melodias. Tão perfeitas, tão aparentemente simples em sua complexidade e seus contornos. Dos baixios sertanejos às amplitudes serranas, voa altaneiro seu canto aprendido com sabiás, asas brancas, acauãs, assuns pretos e toda infinidade passarinheira que guiou e seguiu o menino até sua madurez de rei majestoso.
Melodias profundas feito os rios que cantou: o Pajeú, o Brígida, o Riacho do Navio, o São Francisco. Pois é principalmente o protagonismo das melodias que nos trazem Nino Karvan e Alberto Silveira nesse belo tributo intitulado “De Lua, Canções de Luiz Gonzaga”.
A voz de Nino em fluente diálogo com o excelente violão de Alberto nos traz Gonzaga, o melodioso. De quebra, a lindeza das letras dos tantos parceiros: Zé Dantas, Zé Marcolino, Humberto Teixeira… É uma quase seresta, um forró pra ser dançado dentro do peito. A sala de reboco somos nós.
E nesse belo álbum dançam nossas lembranças em que os harmônicos das cordas de aço são como benfazejos pingos d’água a nos imunizar da chuva ácida por vir. Temos anticorpos: Gonzaga, Villa-Lobos, Catulo da Paixão Cearense, Mário de Andrade, Dilermando Reis, Canhoto da Paraíba, Ariano Suassuna, Câmara Cascudo, Jorge Amado, Quinteto Armorial, Quinteto Violado, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Elomar, Vital Farias…
Estão todos na alma desse disco e sua cantoria. Mas não num modo saudosista. Sinto-os presentes como um portal possível a nos apontar o futuro, luneta do tempo. Faróis espiando o devir, que obviamente pode ser visto e desejado de muitas formas.
A invenção do Nordeste, da qual Luiz Gonzaga foi personagem central, e agora sua necessária reinvenção são permanentes gestos geopolíticos. Reinventar Gonzaga, reinventar o Brasil. Como um lugar de todos. Dos negros, dos índios, dos negríndios. Trazer nossos batuques em seis por oito pros centros de gosto. Prazer e poder, de fato.
“De Lua, Canções de Luiz Gonzaga” é um sereno ato político. Uma serenata nordestina cantando a vida brasileira diante da lama que cobre Minas, do fogo que destrói a Amazônia, do óleo que mancha o mar, do cinismo que envenena a vida cotidiana. Uma serenata a dizer: “Te cala, acauã! Que é pra chuva voltar cedo”.
[*] É cantautor e escreve este texto na abertura do encarte do Projeto-CD “De Lua, Canções de Luiz Gonzaga”, que Nino Karvan e Alberto Silveira lançam nesta sexta-feira, 15, às 21h, numa live no Instagram, depois de uma temporada de apresentações ao vivo no ano passado. O CD é uma obra de arte que começa no projeto da capa-encarte, com as letras, esculturas de Sílvia Machado, arte gráfica da Gabi Etinger e fotos do próprio Nino e de Alê Alcântara.









