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Jozailto Lima

É jornalista há 43 anos, poeta e fundador do Portal JLPolítica.

Opinião - Noventa anos de Confiança: entre a fábrica e o futuro
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Luciano, ao lado de Petrúcio Souza, presidente do clube, e Diogo Lemos, CEO da SAF: um torcedor para bem além da teoria

[*] Luciano Barreto

Três dias atrás, no silêncio de um feriado, o Confiança completou 90 anos. Eu deixei a data passar sem texto, sem postagem, sem discurso. Mas não por esquecimento. Por respeito. Noventa anos de um clube não se resolvem com parabéns no automático. Noventa anos exigem reflexão.

Nasci torcedor do Confiança. Cresci ouvindo histórias do Bairro Industrial, dos operários da Fábrica Confiança que fundaram o clube num 1º de maio, entre partidas de vôlei e o sonho de ter algo que fosse deles.

Joaquim Sabino Ribeiro Chaves, Epaminondas Vital, Isnard Cantalice: uma gente que construiu um clube com as mãos que usavam para trabalhar. O Confiança não nasceu em berço de ouro. Nasceu proletário. Daí carrega isso na alma até hoje.

Quando Sabino Ribeiro subiu naquele palanque improvisado e disse à multidão que o Confiança ficava e a fábrica saía, porque o clube não pertencia mais à fábrica, pertencia ao povo, ele definiu a identidade desse time para sempre. Nove décadas depois, essa frase continua sendo a “Constituição” não escrita do Dragão.

Eu olho para esses 90 anos e vejo um clube que conquistou 24 campeonatos sergipanos, que revelou talentos, que levou o nome de Aracaju e de Sergipe para o cenário nacional. Vejo também um clube que sofreu com a falta de estrutura, com a escassez de recursos, com a distância entre a paixão da torcida e as condições reais de competir.

Conheço essa distância. Lido com ela no meu setor, o da construção civil. A diferença entre o que se sonha e o que se executa depende de planejamento, gestão e de capital. Por isso apoiei desde o primeiro momento a transformação do Confiança em Sociedade Anônima do Futebol - SAF.

Quando Rodolfo Landim apresentou o projeto, reconheci ali o mesmo raciocínio que aplico nos meus negócios: profissionalizar para crescer, estruturar para competir, investir para colher.

A aprovação por unanimidade, em novembro passado, com 481 votos a favor e nenhum contra, mostrou que a torcida proletária pensa igual. O torcedor do Confiança quer resultados. Quer ver o time brigando por acesso, disputando de igual para igual. Formando jogadores. Não quer mais viver de promessas.

A temporada de 2026 já deu sinais do que está por vir. Vice-campeão sergipano, numa final dura contra o Sergipe, com a Arena Batistão lotada. Agora o Dragão disputa a Série C do Brasileirão, com calendário pesado e a obrigação de mostrar que a SAF não é apenas papel assinado. É trabalho. Centro de Treinamento, categorias de base, modernização do Sabino Ribeiro, quitação de dívidas. Tudo isso precisa sair do PowerPoint e virar algo concreto. Literalmente.

Eu me comprometi a atrair outros investidores para esse projeto. Faço isso porque acredito que o futebol sergipano merece mais. Sergipe tem talento, tem torcida, tem paixão. O que sempre faltou foi uma estrutura profissional que convertesse essa paixão em competitividade. A SAF é essa ponte. Não é garantia de título. É garantia de que, pela primeira vez, o Confiança terá condições reais de brigar por eles.

Noventa anos. O Confiança nasceu da fábrica e virou do povo. Agora precisa virar do futuro, sem jamais esquecer de onde veio. Cada tijolo do Sabino Ribeiro, cada grito da torcida proletária, cada bandeira azul tremulando na arquibancada é um lembrete: esse clube não é de um dono. É de uma cidade. É de um Estado. Que venham os próximos 90 anos.

[*] É empresário e, como pode ser visto neste artigo, um aguerrido torcedor do Confiança.

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