
[*] Juliano César Faria Souto
Na mitologia antiga, a Fênix é uma ave lendária que, ao perceber sua morte se aproximar, constrói um ninho de mirra e incenso, incendeia-se e das cinzas renasce com mais força, esplendor e propósito. É uma metáfora poderosa sobre renovação, superação e reinvenção - exatamente o que o Brasil precisa neste momento.
Vamos aqui a algumas hipóteses. Primeiro, oportunidade de virada. Precisamos construir uma nação de verdade. Assim como Getúlio Vargas soube, nos anos 1940, transformar as ambiguidades da Segunda Guerra Mundial em impulso para a industrialização e a modernização do Brasil, também podemos hoje transformar esta crise comercial em um catalisador de uma nova estratégia de nação mais altiva, ativa, inovadora, autônoma e integrada.
Segundo, não precisamos mais de um modelo econômico extrativista e vulnerável. Como no romance “Equador”, de Miguel Sousa Tavares, os erros de uma economia fundada na extração sem transformação e na obediência sem soberania repetem-se ciclicamente nas nações sem projeto. Portugal, mesmo potência colonial, jamais rompeu sua dependência econômica da Inglaterra industrial. E viu sua relevância esvair por falta de estratégia.
O Brasil, herdeiro direto dessa lógica, ainda opera como celeiro do mundo - e não como cérebro. Exporta riqueza bruta e importa valor. Por isso, basta uma canetada em Washington para abalar toda a nossa balança comercial.
Terceiro: temos uma estrutura tributária e burocrática que pune quem produz. Empreender, inovar e competir globalmente exige ambiente favorável. No Brasil, esse ambiente ainda é inóspito.
Quarto: instituições frequentemente capturadas por interesses de curto prazo. Isso é horrível. Sem planejamento de Estado, o Brasil segue frágil às pressões externas e aos improvisos internos.
Quinto: ausência de uma visão unificadora de futuro. Tomo emprestado aqui um chamamento feito em 2018 pelo empresário Abílio Diniz: “Não vamos embora do país”. Não mesmo. Em momentos como este, cresce a exploração maniqueísta do falso binário direita x esquerda, quando em verdade somos duas faces de uma mesma moeda
Portanto, a maior fragilidade brasileira é a divisão interna permanente: ideológica, institucional, regional e setorial. Enquanto nos fragmentamos, os outros países se organizam, se impõem e crescem.
E sexto, da dependência à soberania: uma escolha urgente. O economista Armínio Fraga foi direto ao afirmar que “se isso [o tarifaço] for algo que leve a uma abertura racional do país, pode ser gradual em algumas áreas, acho que vai ser bom para nós. E, se for bom para ele, tanto é melhor”.
Abrir-se ao mundo é necessário - mas sem projeto, viramos reféns. A verdadeira soberania exige competência produtiva, inserção geopolítica e articulação entre Estado, setor privado e sociedade civil.
Países como Índia, Indonésia, Turquia e China não são democracias exemplares nem sistemas perfeitos, mas têm projetos. Por isso, resistem melhor às pressões externas e ocupam posições centrais nas cadeias globais.
A democracia só se sustenta com soberania real. E soberania se constrói dominando cadeias produtivas, investindo em ciência, formando cérebros, integrando tecnologia, valorizando o que criamos - e não apenas o que extraímos.
O tarifaço como alerta: o que fazer? O tarifaço é um choque de realidade, mas também uma janela de oportunidade para redesenhar o modelo produtivo, revisar prioridades educacionais e tecnológicas, investir em políticas industriais verdes, integrar inovação e inclusão, valorizar o que é feito no Brasil, da agricultura à inteligência artificial.
Como a Fênix, só renasceremos se aceitarmos encarar o fogo da mudança com coragem e união. Chega de fragmentação ideológica, populismo digital, retóricas vazias e nacionalismos de ocasião.
Portanto, concluo que das cinzas, há a chance de renascer como nação. O futuro não está sendo dado - ele será construído por quem tiver coragem de sonhar grande e agir com responsabilidade.
O Brasil pode, sim, emergir mais forte desta crise. Mas só se abandonar os atalhos fáceis da dependência e trilhar, com união e coragem, o caminho da reconstrução nacional. Que o tarifaço não seja o fim de um ciclo, mas o início da transformação. “A história cobra caro dos povos que terceirizam seus destinos”.
[*] É administrador de Empresas graduado pela Faculdade de Administração de Brasília, com MBA em Gestão Empresarial pela FGV, atua como sócio administrador da empresa Fasouto no setor atacadista, distribuidor e autosserviço, e é líder empresarial, exercendo, atualmente, o cargo de presidente do Conselho Fiscal da Associação Brasileira de Atacado e Distribuidores - ABAD - e presidente do Conselho de Gestão do Lide Sergipe.
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